‘Química’ entre lula e trump esfria após novo tarifaço
A sobretaxa de 25% anunciada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros inaugura um ...
A sobretaxa de 25% anunciada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros inaugura um novo momento na relação entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. Após meses de negociações sem avanços, o Palácio do Planalto decidiu adotar uma postura mais cautelosa diante da Casa Branca: evitar iniciativas de aproximação, fazer com que o presidente brasileiro responda apenas a críticas feitas diretamente pelo líder americano e manter as conversas concentradas na equipe técnica, enquanto avalia que Washington tende a postergar um acordo comercial até as eleições brasileiras.
Depois de uma surpreendente "química" e de encontros presenciais, Lula não conseguiu evitar reveses, como a classificação de facções brasileiras como terroristas e a nova tarifa.
Do lado brasileiro, a tendência também é não dar prioridade à análise da indicação do novo embaixador americano em Brasília. Auxiliares do presidente afirmam que, no Planalto, prevalece a avaliação de que Washington deve "sentar em cima" das negociações sobre a tarifa até as eleições, na expectativa de estabelecer uma interlocução mais favorável com um eventual governo de direita.
cinco reuniões
As negociações com o governo americano contaram com cinco reuniões de alto nível entre ministros de Lula e auxiliares de Trump. Nas conversas, os americanos exigiram contrapartidas consideradas "indignas" pelo governo Lula, como tarifa zero para bens industriais, máquinas e equipamentos, indústria química, setor espacial e automotivo, além de zerar tarifa do etanol e não regulamentar plataformas digitais.
Em outro desgaste recente, Trump escolheu Daniel Perez (um parlamentar da Flórida, próximo ao presidente) para o cargo de embaixador do país no Brasil sem consulta formal prévia ao governo brasileiro, como é praxe nessas situações, causando incômodo no Itamaraty. Diante do atropelo de protocolos, auxiliares relatam que o governo brasileiro não terá pressa para avaliar o nome de Perez, e fará um pente-fino prévio, para checar posicionamentos do parlamentar sobre o Brasil.
Agora, auxiliares de Lula buscam medir os próximos passos da relação entre os presidentes. Lula não deve poupar críticas em temas como guerras, mas a tendência é também tentar não escalar as tensões e responder caso Trump faça críticas diretas.
Nenhum telefonema ou encontro com Trump deve ser sugerido pelo governo, considerando também que a prioridade do presidente americano agora é o conflito no Oriente Médio. Em evento no Rio de Janeiro na última sexta-feira, Lula deu o tom do discurso que deve ser adotado:
" Vou deixar para falar do tarifaço quando o Trump falar. Enquanto ele não falar, eu não falarei.
A percepção é de que o presidente deve se resguardar para responder apenas a uma figura política à sua altura. Críticas como a do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que disse na semana passada que Lula não negociou as tarifas, serão respondidas pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
O tom adotado na reação da nova taxação deve ditar como Lula tratará o tema às vésperas da eleição. Desde o ano passado, o tarifaço se tornou uma pauta importante para a popularidade do presidente, principalmente com o envolvimento da família Bolsonaro com o governo de Trump pelas tarifas.
O governo brasileiro chegou a afirmar, inclusive, que acionaria a Lei da Reciprocidade, que permite ao Brasil impor tarifas adicionais, suspender acordos ou barrar patentes em retaliação a medidas como o tarifaço. Porém, o tom nos bastidores é de cautela, com a avaliação de que é melhor esperar antes de adotar uma medida concreta.
A sobretaxa de 25% deve atingir cerca de R$ 11 bilhões em exportações do agro e da indústria, segundo a Câmara do Comércio Americana (Amcham Brasil). Para o ex-secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, a eleição brasileira tem sido um elemento importante para o governo americano, que tem interesse em uma gestão mais à direita no Brasil.
" Isso seguramente está sendo considerado ao colocar mais barreiras contra o Brasil " diz o consultor da BMJ, que destaca que o uso da lei da reciprocidade é parte da negociação: " É natural que o Brasil adote reciprocidade. Os EUA já têm um superávit gigantesco que tem aumentado esse ano por conta das barreiras que eles impuseram, então é natural que o Brasil também reaja até para obrigar uma negociação.
opiniões divididas
Professor da Universidade Internacional da Flórida, Guilherme Casarões destaca que mesmo com as tarifas e gestos recentes contra o Brasil, o governo Trump tem opiniões divididas em como conduzir as relações.
" Dentro da própria Casa Branca, não há consenso a respeito de como lidar com o Brasil. Trump percebeu instintivamente que o Lula era uma figura com quem ele poderia conversar. Mas há figuras mais ideológicas que conturbaram a relação, como Marco Rubio, que faz uma série de críticas ao governo brasileiro " diz o cientista político.
Para o professor do Insper Leandro Cosentino, Lula pode adotar uma postura resguardada em discursos internacionais, mas o tema pode ser um ativo da campanha.
" Acho difícil que Lula lance mão de uma narrativa para de alguma forma capitalizar com discurso da soberania. O governo deve manter os canais abertos, claro, mas muito dificilmente deve avançar em algo com Trump.