Jueves, 23 de Julio de 2026

No desenrola 2.0, valor negociado já representa 84% da primeira versão

BrasilO Globo, Brasil 23 de julio de 2026

Lançado em maio em meio a um endividamento recorde das famílias e numa tentativa de criar ...

Lançado em maio em meio a um endividamento recorde das famílias e numa tentativa de criar uma vitrine eleitoral para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Desenrola 2.0 negociou R$ 44,7 bilhões em crédito em menos de três meses de funcionamento, demonstrando um ritmo acelerado em relação ao primeiro programa, segundo dados do Ministério da Fazenda.
Esse montante já equivale a 84% dos R$ 53 bilhões negociados durante os dez meses da primeira edição do programa, entre julho de 2023 e maio de 2024. A atual versão do programa inclui ações para empresas.
Na versão atual do Desenrola destinado às pessoas físicas, já foram negociados R$ 20,9 bilhões em dívidas " reduzidas para um saldo de R$ 3,7 bilhões. Ou seja, em menos de três meses, o projeto atual equivale a 40% das negociações totais do anterior apenas no segmento destinado às pessoas físicas.
O Desenrola Empresas foi responsável por outros R$ 23,2 bilhões. Nessa modalidade, a iniciativa permite que as empresas quitem operações de crédito ativas contratadas na mesma instituição financeira, tanto do Pronamp (destinado para empresas com faturamento até R$ 4,8 milhões) quanto do Procred 360 (para aquelas com faturamento anual de até R$ 360 mil). O crédito também pode ser utilizado para quitar total ou parcialmente outros contratos da empresa.
Uma das novidades desta edição é a possibilidade de usar recursos do FGTS para quitar dívidas. O uso do fundo no âmbito do programa, no entanto, somou R$ 55,5 milhões até o momento, apenas 0,68% do limite de R$ 8,2 bilhões anunciado pelo governo. Ao todo, cerca de 97 mil trabalhadores optaram por usar parte dos recursos para quitar dívidas no Desenrola.
Mais opções
O balanço não inclui dados de renegociações do Desenrola Fies, do Desenrola Adimplentes e do Desenrola Rural.
O programa é uma das principais apostas do governo Lula para tentar reverter a percepção negativa da população em relação à economia, marcada por níveis elevados de inadimplência e endividamento. As negociações vão até agosto.
A inadimplência bancária chegou ao patamar recorde em maio deste ano, mês em que houve o lançamento do novo Desenrola Brasil. A taxa média, considerando atrasos superiores a 90 dias de pessoas físicas e empresas, subiu para 4,7%.
A situação é ainda mais preocupante quando se consideram apenas as operações de pessoas físicas na modalidade de crédito com recursos livres " como cheque especial, cartão de crédito e crédito pessoal. Nesse caso, o índice sobe para 7,6%, também o maior percentual da série histórica.
O economista Flávio Ataliba Barreto, da FGV Ibre, afirma que a situação no Brasil tem se agravado por um conjunto de fatores, entre eles o elevado custo do crédito, com a taxa básica de juros em 14,25% ao ano. Além disso, segundo ele, hoje há maior facilidade para contrair empréstimos:
" O novo mundo digital faz com que a gente consiga aumentar nosso limite ou contratar um empréstimo apenas pelo celular. Antes era necessário ir até uma agência. Isso, somado aos padrões de consumo e ao crédito caro, como ocorre no Brasil, leva a um quadro mais preocupante de inadimplência e endividamento.
O endividamento das famílias chegou a 49,9% em fevereiro, o maior patamar da série histórica do Banco Central. São mais de 80 milhões de brasileiros nessa situação. Para a economista do Insper Juliana Inhasz, o dado reflete uma piora da situação econômica das famílias, mesmo após o encerramento da primeira edição do Desenrola, em 2024. Segundo ela, é necessário que o programa ofereça soluções estruturais, e não só paliativas. A especialista destaca o aumento da procura pelas renegociações na nova iniciativa.
" As pessoas já conhecem o programa, o que diminui o custo de entrada, de transação e as barreiras operacionais. O programa ampliou o escopo: há mais pessoas elegíveis e mais agentes financeiros participantes. Por fim, ainda existe um estoque grande de pessoas endividadas. Apesar das melhorias, os brasileiros continuam convivendo com dívidas contraídas há muito tempo. Ou seja, você ampliou o público que pode ser beneficiado, mas esse grupo continua bastante endividado.
O programa foi ampliado e passou a adotar critérios menos restritivos, alcançando um universo maior de devedores. Na primeira edição, ele era dividido em duas faixas, com critérios de renda e valor da dívida. No novo desenho, consumidores que ganham até cinco salários mínimos (R$ 8.105) podem renegociar dívidas de cartão de crédito, cheque especial ou crédito pessoal sem garantia.
Rafael Ribeiro, de 28 anos, conseguiu renegociar suas dívidas por meio do programa do governo. O estrategista de marketing e conteúdo conta que começou a se endividar após perder o emprego. Sem renda, passou a acumular dívidas no cartão de crédito e contraiu empréstimo. A de R$ 4,4 mil baixou para R$ 500 e, assim, conseguiu quitar o débito.
Colaborou Julia Fernandes, estagiária, sob a supervisão de Janaina Lage
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