Fmi: tarifas devem ter impacto modesto no brasil
O Fundo Monetário Internacional (FMI) afirmou em relatório que a economia brasileira tem se ...
O Fundo Monetário Internacional (FMI) afirmou em relatório que a economia brasileira tem se mostrado resiliente nos últimos anos, apesar de sucessivos choques, incluindo as recentes tensões comerciais globais. Para o órgão, apesar das tarifas aplicadas ao Brasil pelo governo americano, "espera-se que o potencial impacto macroeconômico seja modesto".
De acordo com dois documentos divulgados ontem " a consulta anual do Artigo IV e a avaliação do setor financeiro, de sigla FSAP " os ganhos desse rearranjo global com a aplicação de tarifas podem ser "mais do que compensados pelos efeitos indiretos negativos decorrentes da incerteza sobre as políticas econômicas globais". Nos documentos, o FMI também elogia o Pix, criticado pelo governo americano, e defende a autonomia orçamentária do Banco Central brasileiro.
Segundo o FMI, como as exportações para os EUA representavam menos de 2% do PIB antes dos aumentos das tarifas e as exportações para outras regiões cresceram, o impacto macroeconômico direto das tarifas no Brasil foi limitado.
"O aumento das exportações de soja para a China desempenhou um papel central" no processo de menor impacto na balança comercial brasileira e no déficit atenuado nas transações correntes do país.
O órgão lembrou que, em agosto do ano passado, a tarifa efetiva aos produtos brasileiros " incluindo aqueles isentos " foi de 29,1%, acima da tarifa média dos EUA para outras economias.
O status de exportador líquido de petróleo e a alta participação de fontes renováveis em sua matriz energética fazem o Brasil registrar uma "notável resiliência" diante do choque da commodity causada pelo conflito no Irã. O FMI projeta que o país cresça 2,4% em 2026 "em meio a termos de troca positivos associados a preços globais de petróleo mais elevados" e aos estímulos fiscais.
Esforço fiscal
O órgão afirmou ainda que as tarifas, apesar de romperem com as cadeias globais de suprimento e promoverem inflação, podem fazer o Brasil "experimentar efeitos modestamente positivos de desvio de comércio", como o de produtos agrícolas.
O FMI afirmou ainda que o país precisa enfrentar o que chamou de "esforço fiscal mais ambicioso", a fim de colocar a dívida pública em uma trajetória "firmemente descendente e abrir espaço para investimentos prioritários".
O comitê de avaliação ressaltou ainda que "uma postura fiscal mais firme apoiaria a desinflação e abriria caminho para taxas de juros mais baixas". Se o esforço fiscal ficar aquém do previsto, disseram, o governo poderia criar um aumento da incerteza e intensificar pressões inflacionárias.
As perspectivas para o crescimento, apesar de positivas, podem ser alteradas diante da "elevada incerteza global" ocasionada pelo conflito. Para o Fundo, uma possível escalada das tensões no Oriente Médio pode elevar a inflação e, "por meio de condições financeiras mais restritivas e de uma menor demanda global, reduzir a atividade econômica".
No relatório de Avaliação da Estabilidade do Sistema Financeiro, elaborado no âmbito do programa de Avaliação do Setor Financeiro (FSAP, na sigla em inglês), iniciativa do FMI e do Banco Mundial, o Fundo recomendou a concessão de "plena" autonomia orçamentária para o Banco Central brasileiro. O órgão destacou ser necessário assegurar maior proteção jurídica aos quadros do BC.
"O FSAP recomendou sanar com urgência as limitações de pessoal nos órgãos de supervisão, conceder ao BCB plena autonomia orçamentária e maior proteção jurídica para seus quadros, além de defender a aprovação de uma legislação mais moderna sobre resolução bancária", destacou o órgão no relatório.
O FMI também fez elogios ao Pix, sistema brasileiro de pagamentos instantâneos que é alvo dos EUA e aparece como um dos pontos centrais do relatório do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), que acusa o BC de favorecer a ferramenta em detrimento de operadoras de cartão americanas, ao limitar as tarifas cobradas por bandeiras estrangeiras.
O FMI diz em seu relatório que a digitalização do sistema financeiro melhorou profundamente a inclusão financeira e eficiência do setor. O documento afirma reconhecer o papel fundamental do sistema Pix e do advento do banco digital na entrega de maior concorrência no sistema financeiro, mantendo simultaneamente a sua segurança e solidez.
"A cibersegurança é uma prioridade clara para que estes ganhos sejam preservados", ressaltou.
Parte das recomendações já constam em projetos em tramitação no Congresso, como a proposta de emenda à Constituição (PEC) que amplia a autonomia do BC e o projeto de lei de resolução bancária.
"Entre os aspectos apontados como prioritários para avanços adicionais, destaca-se a necessidade de fortalecimento do arcabouço institucional do Banco Central, de modo a assegurar condições adequadas para o financiamento de suas atividades, a recomposição de seu quadro de servidores e a atração e retenção de profissionais altamente qualificados.", destacou o BC, em nota.
Sistema sólido
O relatório do FMI também destaca a liquidação do Banco Master em 2025, mas pondera que não houve repercussões para o sistema bancário como um todo, que "apresenta colchões de capital e liquidez agregados sólidos e é, em geral, lucrativo".
Segundo o FMI, o sistema de supervisão bancária registrou avanços significativos desde a última avaliação, em 2018, mas o Banco Central necessita "urgentemente" de recursos adicionais.
O documento ainda ressalta que a adoção de um arcabouço jurídico completo para a resolução bancária e o aprimoramento do compartilhamento de informações com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) reforçariam a capacidade do BC de gerir crises. Conforme o FMI, o BC elaborou planos de resolução para bancos sistemicamente importantes ao nível nacional e tem exercido seus poderes com "máxima eficácia", mas o projeto que moderniza o processo de resolução bancária está parado no Congresso desde 2019.