‘Voar no brasil não é mais desafiante que em outros países’
Entrevista
Entrevista
A carioca Monica Afonso chegou ao posto de country manager da Copa Airlines no Brasil, o equivalente a CEO da companhia aérea panamenha no Brasil, num momento estratégico. A Copa tem um plano de dobrar o tamanho de sua frota nos próximos anos. Anunciou em abril a compra de 60 aviões Boeing 737 MAX, numa operação avaliada em US$ 13,5 bilhões, que se somarão a outras 43 ainda pendentes de entrega. Em entrevista ao GLOBO, a executiva com formação em Turismo e mais de 30 anos de experiência no setor de aviação, explica que esse movimento favorece a intenção da companhia de ampliar a sua atuação nas Américas, particularmente na ligação entre capitais brasileiras, para além de Rio e São Paulo, e a Cidade do Panamá, que se consolidou como um hub de conexões para várias cidades do continente, inclusive dos Estados Unidos, e do mundo. Com formação em Turismo e mais de 30 anos de experiência na aviação, Monica quer incentivar mais brasileiros a visitar o Panamá no meio do caminho para outros países.
Quais são os planos da Copa Airlines para o Brasil?
Em 2022, voávamos para quatro cidades brasileiras. Hoje, são oito. O Rio tem três frequências diárias para o Panamá, e São Paulo, cinco. A grande oportunidade de crescimento no país é essa capilaridade: o passageiro de Porto Alegre, Salvador, Florianópolis, Manaus, Brasília e Minas iniciar sua viagem internacional sem passar por São Paulo e Rio e se conectar a 85 destinos no exterior.
A companhia pretende ampliar o número de frequências por aqui?
Neste mês, alcançamos a marca de cem frequências semanais no Brasil. É um marco histórico muito importante para a empresa. Julho é alta temporada, mas mesmo após este período a expectativa é fortalecer os destinos no Brasil e manter esse patamar. O que eu quero dizer com fortalecimento? É aumento de frequências em cidades que façam sentido. No exterior, teremos o anúncio de mais um destino.
Qual é a importância do mercado brasileiro para a Copa?
O Brasil é o segundo mercado em termos de receita de passageiros, frequências operadas, quantidade de destinos ofertados, assentos disponibilizados. Só fica atrás dos EUA, onde voamos para 17 cidades.
Qual é a sua avaliação sobre o acordo para a criação de um mercado comum de transporte aéreo entre os países da América do Sul, chamado de ‘Céu Aberto’? Pode aumentar a concorrência, baratear bilhetes?
Será preciso analisar diversos fatores. Como está a economia dos países participantes? Há possibilidade de um maior aumento de frequências ou não? Como é a competitividade? Em termos de Brasil, temos a Reforma Tributária (cuja transição para um novo sistema de impostos sobre consumo termina em 2032). Como ela vai impactar as companhias internacionais e as domésticas? Então, acho que tem muitas coisas ainda a serem analisadas. A Copa foca nos mercados onde ela já opera. O objetivo é oferecer mais capilaridade para esses países.
Quais são os desafios de uma aérea para operar no Brasil?
O Brasil não é mais desafiante que outros países. Cada um tem suas peculiaridades. A Copa é muito consciente dos seus custos para operar de forma segura e rentável. Vimos isso claramente na pandemia. Então, para operar no Brasil, ou nos outros destinos, a empresa está muito bem embasada, com a simplicidade da sua operação em termos de frota (só Boeings), a proposta de valor para o cliente e para os parceiros comerciais. Assim, navegamos melhor nas complexidades de cada país.
Com a alta do preço do petróleo (e do combustível de aviação) por causa da guerra no Oriente Médio, a Copa suspendeu rotas como fizeram outras aéreas para cortas custos?
Não cortamos rotas e nem deixamos de atender nenhuma cidade. Focamos em outras medidas para reduzir custos. Por exemplo, o congelamento de contratações e a renegociação de acordos com fornecedores. A única redução de frequências foi para Cuba (Havana e Santa Clara), mas devido à situação local (país vive grave crise energética) e à falta de demanda de passageiros.
A Copa terminou 2025 com 113 aviões. Tem 43 a receber da Boeing e fez nova encomenda de 60. Para onde a empresa vai se expandir duplicando a frota?
O foco é nas Américas, onde voamos para 32 países. Temos planos de terminar este ano com 121 aeronaves e alocar essa nova capacidade em mercados aquecidos, como o Brasil. Mas não posso duplicar a frota se meu hub, no Panamá, ainda não estiver preparado para este aumento. Então estamos anunciando uma novidade.
E qual é?
A Copa opera com seis "bancos de horários" hoje. Começa por volta de 5h e vai até 21h. Ampliamos para oito, das 4h30 às 21h30. Crio mais opções de conexão e ofereço aos países da América do Sul mais possibilidades de saídas para o Panamá. Mas o aeroporto (Internacional de Tocumen, na Cidade do Panamá) já vem se modernizando. Havia um único terminal de passageiros até 2024. Já são dois, com possibilidade de crescimento. E criamos a Sala Panamá.
O que é esta sala?
É um show room do Panamá, aberto a todos os passageiros em conexão. Oferecemos informações para que as pessoas conheçam o país, que vai além do Canal do Panamá (que liga os oceanos Atlântico e Pacífico). Para a Copa Airlines é importante promover o stopover (parada programada em uma cidade de conexão). No ano passado, foram 215 mil visitantes no total das Américas e, neste ano, queremos chegar a 250 mil. Do Brasil, a meta é que 25 mil pessoas façam stopover este ano. O passageiro agora pode ficar até 15 dias (no Panamá, a caminho de outro). Conhece dois países pelo mesmo valor da passagem.
Qual é o diferencial da Copa Airlines em relação às concorrentes nas Américas?
Conectividade é um exemplo. Temos um hub onde o passageiro tem conexão para 32 países e mais de 85 destinos. A Copa conseguiu fazer essa estrutura funcionar muito bem, é imbatível. Pontualidade também. Por onze anos, fomos eleitos a companhia mais pontual das Américas. Temos usado a inteligência artificial (IA) para estruturar a conectividade e a pontualidade.
Como isso é feito?
Com a ajuda da IA, sei exatamente quantos passageiros do Brasil daquele voo têm conexão para um determinado destino. Com isso, consigo que o grupo faça conexão às vezes no mesmo portão ou ao lado. Na Copa, a conexão é feita em 40, 45 minutos. Esse modelo vem sendo construído há muitos anos, e hoje a concorrência tenta buscá-lo. É simplicidade e eficiência no processo de viagem. E não termos imigração no Panamá é um diferencial importante, torna a experiência do passageiro mais positiva. O passageiro faz a conexão e só vai fazer imigração e retirar a bagagem no destino final
Como está a taxa de ocupação dos aviões? A Copa do Mundo trouxe impulso extra?
Está acima de 85%, mas temos cidades com mais de 90%, 92%. No Brasil, estou 50% acima da minha meta. O ano tem sido excelente. Estou otimista para o segundo semestre. Durante a Copa do Mundo, houve movimentação no Brasil, na Argentina, mas não foi a Copa que proporcionou esse aumento expressivo.
Algumas aéreas têm aumentado a oferta de lugares e serviços "premium". Como é na Copa Airlines?
Temos um conceito chamado "mercado garantido". Em algumas cidades, operamos com o (Boeing) Max 9, onde há cama na classe executiva. O passageiro voa do Rio ou de São Paulo para São Francisco nessa classe executiva premium. Em julho, fizemos um voo-teste para implementar a internet da Starlink. Não é só mensagem de texto. O passageiro pode conectar no seu streaming preferido. O Wi-Fi da Starlink é oferecido a todos os passageiros com custo acessível e será gratuito para a classe executiva. E temos a classe Economy Extra, com mais espaço entre as poltronas, com telas individuais em alguns modelos de aeronaves.
Monica Afonso / CEO da Copa no BRasil