‘A cooperação estreita entre as nações é mais crucial do que nunca’
Entrevista
Entrevista
Na semana passada, o governo dos EUA impôs um novo tarifaço a dezenas de países, em mais um desafio à ordem econômica internacional e ao modelo multilateral em vigor desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Enquanto a Casa Branca ameaça ampliar seu arsenal tarifário, aliados buscam no diálogo saídas para um cenário cada vez mais desafiador.
Em entrevista exclusiva ao GLOBO, o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, que inicia visita ao Brasil hoje, destaca a força das relações entre Seul e Brasília como uma poderosa ferramenta de contenção de crises, e insta a comunidade internacional a agir conjuntamente em tempos de incertezas. Confira os principais trechos da conversa.
Em fevereiro, quando o presidente Lula esteve na Coreia do Sul, os senhores conversaram sobre a defesa do multilateralismo, e ele afirmou que o aguardado Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e Coreia do Sul pode sair ainda em 2026. O senhor compartilha desse otimismo?
Quando me reuni com o presidente Lula, na reunião de cúpula realizada em fevereiro deste ano, concordamos quanto à importância de manter uma ordem comercial internacional livre e baseada em regras, em meio à expansão do protecionismo e do unilateralismo no cenário do comércio internacional. Com base nessa convergência de visões, debatemos em profundidade a necessidade de uma célere conclusão do Acordo Comercial Coreia-Mercosul, em pauta há muitos anos. Também aprecio profundamente a forte determinação e a perspectiva otimista demonstradas pelo presidente Lula. Considerando que, desde o início das negociações em 2018 até 2021, foi construída uma base sólida ao longo de sete rodadas formais de negociação, acredito que os esforços conjuntos contribuirão para o rápido avanço e a conclusão das atuais negociações do Acordo Comercial Coreia-Mercosul.
No entanto, como as negociações de acordos comerciais envolvem questões sensíveis para ambas as partes, como o acesso a mercados, mais do que prever uma data específica para a conclusão, considero fundamental alcançar um resultado mutuamente benéfico e equilibrado. A República da Coreia trabalhará em estreita cooperação com os países-membros do Mercosul para resolver com diligência as pendências remanescentes e envidará todos os esforços para concluir, o mais breve possível, um acordo de alto nível que traga benefícios concretos para ambos os lados. Mais do que uma simples cooperação econômica, o Acordo Comercial Coreia-Mercosul será um marco importante que demonstrará o compromisso conjunto da Coreia e do Mercosul em defender uma ordem comercial livre e aberta em uma comunidade internacional marcada por crescentes incertezas.
Coreia do Sul e Brasil foram alvo de novas tarifas dos EUA, anunciadas nos últimos dias. O senhor acredita que haja mecanismos de resposta global conjunta? A Organização Mundial do Comércio (OMC) ainda é um caminho válido?
Nas últimas décadas, a economia global cresceu fundamentada em um sistema multilateral de comércio aberto e previsível, tendo a OMC como eixo central. Contudo, com a recente expansão do protecionismo, as funções da OMC têm se enfraquecido e a incerteza enfrentada pelas empresas no mercado global tem aumentado. Em momentos como este, torna-se crucial que as nações busquem em conjunto soluções por meio do diálogo e da cooperação. Dado que cada país possui estruturas econômicas e interesses distintos, é difícil que todas as nações respondam da mesma maneira. Não obstante, o princípio de manter uma ordem comercial livre, justa e previsível é um valor que deve ser compartilhado pela comunidade internacional. É fato que existem críticas de que a OMC não respondeu adequadamente às transformações no ambiente comercial. Apesar disso, ela continua sendo o fórum multilateral mais abrangente e legítimo, baseado em normas de comércio internacional, onde os Estados-membros podem dar continuidade ao diálogo, solucionar disputas e ampliar a cooperação. Daqui em diante, é fundamental reforçar as funções da OMC e promover reformas alinhadas às mudanças do cenário atual. O Brasil é um parceiro importante que tem apoiado consistentemente o multilateralismo e a ordem internacional baseada em regras, e a Coreia compartilha igualmente esses valores.
No ano passado, em referência à crise no Oriente Médio, o senhor determinou a revisão rigorosa do sistema de respostas a emergências. Em um mundo onde a incerteza se tornou o novo normal, estar preparado para crises deve ser prioridade?
Hoje, com a intensificação dos conflitos geopolíticos e o enfraquecimento da liderança global, as normas e a ordem que sustentaram a comunidade internacional por muito tempo estão sendo abaladas. Os conflitos persistentes em várias partes do mundo, inclusive no Oriente Médio e na Europa, desencadeiam instabilidades nas cadeias de suprimento, bem como crises energéticas e inflacionárias, afetando diretamente a vida cotidiana dos cidadãos de cada país. Os esforços de cada país, isoladamente, têm seus limites. A cooperação estreita e a solidariedade entre as nações são mais cruciais do que nunca. O que tenho confirmado em reuniões bilaterais com líderes do G20 e de outras grandes nações foi o consenso de que devemos fortalecer a cooperação e a atuação conjunta, em vez do confronto e do conflito.
Mesmo em meio a uma ordem internacional incerta, a República da Coreia tem fortalecido continuamente sua capacidade de assumir a responsabilidade por sua própria segurança nacional por meio de um "autofortalecimento". Ao mesmo tempo, como membro responsável da comunidade internacional, tem contribuído ativamente para a resolução de questões globais. Ademais, estamos ampliando nossa solidariedade por meio de diversos fóruns de cooperação plurilaterais e multilaterais. Contudo, a solidariedade almejada pela Coreia não visa à exclusão ou ao confronto com países específicos, mas sim a uma cooperação prática e aberta, na qual nações capacitadas assumam maior responsabilidade para fortalecer a cooperação setorial e aperfeiçoar a ordem internacional.
Recentemente, o senhor defendeu a paz duradoura na Península Coreana e um futuro de coexistência e cooperação com a Coreia do Norte. Ao mesmo tempo, Pyongyang recusa o diálogo com Seul e estreita seus laços com a Rússia. Como o senhor pretende lidar com esse cenário?
Nosso governo mantém o firme compromisso de ir além da era de hostilidade e confronto intercoreano para construir uma nova Península Coreana de coexistência pacífica e crescimento conjunto. Promovemos de forma consistente medidas preventivas para reduzir as tensões militares e trabalhamos continuamente para estabelecer as bases da restauração do diálogo e da confiança. Apesar disso, lamento profundamente o fato de ainda não termos alcançado um avanço decisivo no diálogo intercoreano. No entanto, movidos pela convicção de que a paz começa com esforços persistentes, continuaremos a buscar firmemente o caminho do diálogo e da cooperação. Em particular, trabalharemos em estreita coordenação com a comunidade internacional, incluindo os Estados Unidos, para enviar uma mensagem consistente de diálogo à Coreia do Norte e envidaremos todos os esforços para criar condições diplomáticas favoráveis à retomada dos diálogos entre as duas Coreias e entre os EUA e a Coreia do Norte. A partir da criação de uma abertura para o diálogo, pretendemos promover de forma abrangente o intercâmbio intercoreano, a normalização das relações e a desnuclearização gradual, alcançando um progresso substancial para a paz e a estabilidade duradouras na Península Coreana. Esses esforços ganharão ainda mais força com o apoio e a cooperação contínuos da comunidade internacional.
Lee Jae Myung / presidente da Coreia do Sul