Domingo, 23 de Agosto de 2026

De ar-condicionado a picolé, efeito el niño deve aquecer vendas

BrasilO Globo, Brasil 23 de agosto de 2026

A perspectiva de intensificação do El Niño " quando as águas do Pacífico se aquecem mais ...

A perspectiva de intensificação do El Niño " quando as águas do Pacífico se aquecem mais que o normal " nos próximos meses e a chegada de seus efeitos mudaram o planejamento da indústria brasileira. De um lado, a previsão de ondas de calor intenso em alguns pontos do país faz empresas de diferentes segmentos, do ventilador ao sorvete, anteciparem a produção e reforçarem estoques para atender à possível alta demanda. Em outra ponta, o risco de chuvas abaixo da média acende um alerta para o setor de ar-condicionado em Manaus. Na Zona Franca, fabricantes temem dificuldades para escoar a produção caso o nível dos rios seja reduzido pela estiagem.
Na Mondial, líder de mercado em ventiladores, a produção para atender à demanda de verão " e também as compras de Black Friday, Natal e liquidações de início de ano " tradicionalmente começa entre o fim de julho e o início de agosto, mas este ano a operação foi adiantada em um mês.
Para isso, a companhia investiu cerca de R$ 250 milhões na compra de matéria-prima, equipamentos, contratação de mil funcionários extras e ampliação das áreas adicionais de estoque. A capacidade produtiva da fábrica de Conceição do Jacuípe (BA) foi ampliada em 80% na comparação ao cenário de 2024, quando o último El Niño foi registrado.
" Ou produzimos antecipadamente, ou não conseguimos abastecer o mercado lá na frente " afirma Giovanni M. Cardoso, cofundador do Grupo MK, dono das marcas Mondial e Aiwa Brasil.
No setor de sorvetes, o El Niño virou uma das variáveis nos cálculos anuais da The Magnum Ice Cream Company para o verão. Dona de marcas como Kibon, Ben & Jerry’s e Cornetto, a companhia aumentou investimentos em equipamentos em 50% neste ano e contratou temporários para atuar na fábrica de Valinhos, no interior de São Paulo.
A Bacio di Latte espera um aumento nas vendas acima de 20% neste verão potencializado pelo El Niño. Para isso, a sorveteria antecipou em um mês a produção de estoque para a alta temporada na fábrica de Cotia (SP).
O volume diário de produção na unidade aumentou em 40% por causa da perspectiva de demanda aquecida nos próximos meses. É de lá que saem sorvetes e picolés da marca vendidos em padarias e supermercados. Já a produção destinada às sorveterias é feita dentro de cada unidade.
Para garantir os estoques, a empresa antecipou a compra de insumos e aumentou em até 30% as encomendas de ingredientes importados, como pasta e grãos de pistache, avelãs e cerejas amarena, que levam até três meses para chegar ao Brasil, detalha Fábio Medeiros, diretor de Marketing da empresa.
" O El Niño força muito mais a cadeia produtiva e os estoques. Monitoramos as temperaturas diariamente para não termos rupturas em um pico de demanda " afirma o executivo.
corrida antes da seca
Fabricantes de ar-condicionado também esperam faturar mais com a previsão de ondas de calor. A Electrolux prevê aumento na demanda na casa de dois dígitos percentuais. Já a Midea Springer aposta em um crescimento de até 15% nas vendas para o varejo.
Parte da demanda, porém, deve ser atendida por aparelhos que estão no estoque das lojas. As temperaturas mais baixas no inverno deste ano frearam as vendas do segmento em 12% na comparação com igual período do ano passado, segundo dados da Eletros, associação de fabricantes.
Mesmo levando esse aspecto em conta, as varejistas anteciparam encomendas. Os pedidos são tradicionalmente feitos em setembro, mas neste ano a Midea recebeu as solicitações em julho. A empresa investiu R$ 85 milhões para, entre outros pontos, expandir a capacidade produtiva de ar-condicionado em 10% e construir novos armazéns para estoque. Além disso, 1,2 mil funcionários foram contratados para atuar na fábrica de Manaus (AM), que também produz micro-ondas.
Antecipar a produção é uma estratégia que busca não só fazer frente ao aumento da demanda como ajudar a escoar a produção o quanto antes. Todos os aparelhos são produzidos na Zona Franca de Manaus, e a estiagem que pode atingir os rios da região impacta desde a chegada de matéria-prima até o escoamento da produção.
" A indústria está correndo para entregar antes que a seca dificulte a logística " diz Simone Camargo, diretora de Marketing da Midea.
Em 2023 e 2024, a baixa sazonal dos rios, que sempre ocorre entre agosto e novembro, atingiu mínimas históricas. Durante 45 dias, entre meados de setembro e outubro de 2023, Manaus ficou inacessível para os navios que carregam contêineres desde a costa do restante do país, entram por Belém (PA) e sobem o Rio Amazonas. Faltaram produtos para os moradores da capital amazonense e insumos para a Zona Franca. O escoamento da produção de motos e eletrodomésticos também ficou prejudicado.
No ano passado, a seca foi menos severa, e os rios, artérias logísticas na Amazônia, não baixaram tanto.
" O nível dos rios está um pouco acima do que estava, nesta época, em 2023 e 2024, mas com uma velocidade de baixa muito rápida. O Rio Amazonas está baixando dez centímetros por dia, é muita coisa " diz Luís Fernando Resano, diretor executivo da Abac, entidade que representa o setor de cabotagem, o transporte marítimo dentro de um mesmo país.
Segundo o meteorologista Francis Wagner Silva Correia, coordenador do Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre (Labclim) da Universidade do Estado do Amazonas, o El Niño "já está deixando marcas na Amazônia", com vazante "bem acelerada" no alto e médio Rio Negro e no alto e médio Solimões e chuvas "abaixo da média em boa parte da região".
" Manaus tende a enfrentar uma seca severa, podendo entrar entre as dez maiores da série histórica " alerta Wagner. " Mesmo com El Niño muito forte, as condições hidrológicas que a gente observa hoje ainda não apontam para um cenário tão crítico quanto o que vivemos em 2023 e 2024. Mas essa é uma leitura do momento.
Resano cobra investimentos da União na dragagem dos pontos críticos dos rios. O governo federal informou que os trabalhos começarão neste mês, segundo o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) e o Dnit, órgão do Ministério dos Transportes responsável por dragar os rios do país.
Cais temporários
Após o bloqueio total de Manaus em 2023, a crise logística de 2024 não foi tão grave porque o setor privado investiu. Duas operadoras de terminais de contêineres no porto da capital amazonense " Grupo Chibatão e Super Terminais " construíram cais temporários no Rio Amazonas, na altura de Itacoatiara (AM), a 270 quilômetros de distância.
Os cais ficam no meio do rio, antes de chegar a Manaus para quem navega subindo contra a correnteza, num ponto onde a profundidade, mesmo na seca, permite a navegação dos cargueiros. Nesses cais, os contêineres são transferidos para balsas, que conseguem navegar em profundidades menores. O percurso até Manaus leva de 12 a 18 horas.
O Super Terminais informou ao GLOBO que já se prepara para instalar cais temporários neste ano, se for necessário. O investimento previsto é de R$ 60 milhões.
" Já iniciamos todos os trâmites operacionais e burocráticos juntos às autoridades e órgãos competentes " afirma Marcello Di Gregorio, diretor-geral do Super Terminais, frisando que a instalação ainda não está definida nem tem data marcada. " A definição da data exata dependerá do ritmo de vazante do rio e da evolução das condições de navegabilidade.
Procurado, o Grupo Chibatão não respondeu .
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