‘Logística aérea é um modelo com poder de construir mercados’
Entrevista
Entrevista
A recente operação humanitária para a Colômbia, que uniu o centro de controle da Avianca aos cargueiros 737 da Gol para contornar restrições de pista na cidade de Armenia, serviu como vitrine da nova musculatura logística do Grupo Abra. A companhia brasileira está deixando de ser uma operadora estritamente doméstica para disputar o mercado externo, alavancada pela expertise internacional e pelos relacionamentos aduaneiros já consolidados da Avianca Cargo.
O divisor de águas, disse a diretora-geral da Gollog, Patrícia Bello, em entrevista ao GLOBO, é a introdução dos widebodies Airbus A330 no hub do Aeroporto do Galeão, no Rio. O avião transporta até 20 toneladas por voo intercontinental, o equivalente a colocar um Boeing 737 cargueiro inteiro dentro do porão de passageiros. A executiva conta que no primeiro mês da rota para Nova York, os voos decolaram lotados, exportando frutas e pescado, e importando componentes eletrônicos no retorno.
No mercado interno, a expansão com o Mercado Livre segue em ritmo acelerado, com nove aeronaves dedicadas à parceria movimentando cerca de 325 mil pacotes diários. A executiva explica que a agilidade da logística aérea tem alterado a balança de consumo em praças estratégicas como Manaus, onde o prazo de entrega caiu de 45 para dois dias.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista:
A operação humanitária na Colômbia mostrou um alto nível de integração da Gollog com a Avianca Cargo. Como essa mobilização reflete a nova fase do Grupo Abra?
Foi um excelente exemplo prático do diferencial de estarmos organizados como grupo. A nossa grande fortaleza agora é conectar as malhas e somar as expertises de cada marca. Na Colômbia, por restrições da pista, os cargueiros da Avianca não podiam pousar, mas o nosso Boeing 737, sim. O Centro de Controle Operacional (CCO) da Avianca aportou muito para o da Gol, repassando orientações técnicas sobre um aeroporto que era desconhecido para nós. Construímos a solução juntos e, em questão de dias, a aeronave estava lá, em um trabalho supercoordenado e sem fricção.
O que a operação casada com a Avianca Cargo traz de vantagem competitiva para disputar o comércio exterior?
A operação da Gollog era majoritariamente doméstica. Quando começamos a internacionalização com as aeronaves A330, passamos a precisar de outro nível de relacionamento com aduanas e de acordos entre companhias. A Avianca já tem essa estrutura com seus mais de 50 anos de operação cargueira. Em vez de construir do zero, usamos o guarda-chuva consolidado deles.
Com a Avianca Cargo, que tem malha internacional consolidada, qual é o peso logístico e comercial para a Gollog de adicionar o Galeão como destino de vendas?
Isso nos permite acessar volumes que não estavam no nosso radar. Hoje, grandes remessas de eletrônicos e moda saem da Ásia e chegam à Europa por companhias parceiras. Com nossos acordos, conseguimos trazer isso para o Brasil. Na hora em que a Avianca vende esse frete global, ela agora pode ofertar o Galeão como destino final. Antes, a carga teria que parar nos hubs deles em Miami ou Bogotá. Ter uma malha que conecte diretamente ao Rio de Janeiro vira um argumento de venda fortíssimo para o grupo.
Qual o impacto da entrada dos widebodies A330 operando no Galeão?
Aumenta em mais de sete vezes nossa oferta de espaço nas rotas internacionais. Transportamos 20 toneladas de carga no porão do A330, o que equivale a quase um cargueiro 737 inteiro. O Galeão é um grande hub para a Gol e tem uma operação mais fluida, menos estrangulada por limitações de área e slots (horário de pouso e decolagem). A concessionária do aeroporto tem sido muito flexível para construir soluções com a gente.
O que já é possível observar sobre a movimentação com a rota ligando o Rio a Nova York?
No trecho de ida exportamos muita fruta e pescado. Kiwi foi um campeão. Carga perecível exige um cuidado adicional, mas temos conseguido otimização muito boa e um nível de ocupação melhor do que esperávamos para o início da operação. No retorno, o mercado é focado em componentes eletrônicos e peças. Sabíamos que seria desafiador, porque os EUA já têm muita rede conectada, mas temos ido bem.
No mercado interno a Gollog assumiu logística de urgência e frota dedicada ao Mercado Livre. Qual foi o efeito?
Quando firmamos a parceria, passamos a protagonizar uma operação cargueira frenética e de alto nível de serviço. Se atrasamos um voo de passageiros, impactamos 186 pessoas. Num cargueiro, comprometemos a expectativa de 25 mil clientes que aguardam suas entregas. A operação saltou de duas aeronaves, em 2022, para nove, no ano passado, com as quais movimentamos mais de 300 mil pacotes por dia.
De que forma a logística aérea altera o comportamento de consumo da população em determinadas praças?
É um modelo com poder de construir mercados. Em Manaus, a promessa de entrega no e-commerce era de 45 dias; hoje, o consumidor recebe em dois. Quando cumprimos a promessa de entrega rápida, fomentamos a venda e destravamos um mercado crescente.
A obrigatoriedade desses voos do Mercado Livre abre espaço para disputar clientes do modal rodoviário?
O grande diferencial é a regularidade. Como o Mercado Livre não pode falhar no prazo de entrega, o nosso avião estará no destino todos os dias. Aproveitamos essa garantia de voo para captar indústrias, seja no polo têxtil de Fortaleza ou nas fábricas de autopeças e eletrônicos de Manaus.
Patrícia Bello / diretora-geral da Gollog