Gastronomia francesa enfrenta ‘crise existencial’
No Marché International de Rungis, o gigantesco mercado atacadista de alimentos conhecido ...
No Marché International de Rungis, o gigantesco mercado atacadista de alimentos conhecido como "o ventre de Paris", o fornecedor de queijos Philippe Ammiche circula com dificuldade entre as intermináveis pilhas de caixas vindas da Itália. A uma hora de carro dali, na Beauce, região conhecida como o celeiro da França, o produtor de trigo Eric Thirouin enfrenta o quarto ano de prejuízos, em meio ao calor intenso. Mais ao sul, no Languedoc, o vitivinicultor Franck Saillan, que se prepara para arrancar parte de suas vinhas, sem saber qual será o futuro da propriedade, nas mãos de sua família há 400 anos.
Vinho, queijo e pão " vin, fromage e pain "são a "santíssima trindade" da identidade gastronômica da França. Agora, porém, representam o maior desafio à posição do país como potência alimentar da Europa, à medida que os franceses cozinham de maneira diferente e bebem menos, e a pressão sobre os produtores é cada vez maior.
As exportações de vinho estão no menor patamar em mais de 15 anos. A muçarela italiana disputa espaço com queijos locais, e uma em cada duas galinhas consumidas na França vem do exterior. No ano passado, o superávit do setor agroalimentar caiu ao menor nível em quase cinco décadas. A Espanha parece estar a caminho de ultrapassar a França como maior produtora da Europa nos próximos anos, com Itália e Polônia logo atrás.
Tudo isso levou o governo de Emmanuel Macron a declarar uma "guerra agrícola". Uma lei, aprovada em agosto, prevê desde prioridade a produtos franceses nas escolas à flexibilização de regras para a criação de animais. No início deste mês, o Ministério da Agricultura anunciou um pacote de mais de € 1 bilhão para ajudar os agricultores após as perdas provocadas pelas recentes ondas de calor e os incêndios florestais.
Apesar de o país se manter como um grande produtor global, la crise vem tomando conta do terroir, enfraquecendo o soft power da França.
Há várias razões por trás disso. A produção agrícola foi afetada por guerras comerciais, desaceleração econômica e doenças nos animais.
Há ainda a mudança climática, com uma das temporadas de incêndios florestais mais destrutivas da França nos últimos anos. Cerca de 96.500 hectares já foram queimados, mais de duas vezes e meia a área atingida em 2025.
Saillan viu os incêndios destruírem cerca de metade dos vinhedos da região de Carcassonne:
" Foi catastrófico.
Vinhos e destilados são os principais itens de exportação do setor agroalimentar francês, mas as vendas para o exterior estão em queda este ano por causa das tarifas de Donald Trump, da demanda mais fraca na China e da redução no consumo de álcool. O clima extremo, por sua vez, provocou uma das menores colheitas dos últimos 50 anos em 2025.
A França, que concentra um décimo dos vinhedos do mundo, perdeu um terço de sua área plantada com videiras nos últimos 50 anos e deve registrar novos cortes. Como parte dos esforços para reduzir a capacidade, melhorar a qualidade e, por fim, elevar os preços, o governo está pagando os produtores para arrancarem suas vinhas.
A comida é uma ferramenta de soft power da França desde o século XVII, quando os luxuosos banquetes de Luís XIV em Versalhes projetavam riqueza e prestígio. Logo após a Segunda Guerra Mundial, o país se tornou uma das economias agrícolas mais produtivas, dominando o comércio de grãos, vinhos e laticínios. Com o tempo, porém, a narrativa evoluiu para a exclusividade, com a proteção de denominações regionais.
Só que as exportações francesas ficaram vulneráveis a desacelerações econômicas e guerras comerciais. Enquanto isso, produtos italianos mais acessíveis e baratos ganharam espaço. As vendas externas da França cresceram 2% no ano passado, e as da Itália, 5%.
E hoje os jovens franceses passam menos tempo cozinhando. Eles optam por refeições prontas, e há o apelo de produtos italianos, mais fáceis de preparar, como azeite, presunto cru, massas e, claro, queijo.
Ammiche, diretor-presidente da atacadista de queijos Buisson, vai ampliar seu espaço no Marché de Rungis para acomodar as infindáveis pilhas de produtos italianos que chegam ao local:
" Sem perceber, todo mundo usa produtos italianos.
Já na área de grãos, a França tem de concorrer com rivais de menor custo, como a Rússia, e com operações de escala industrial dos EUA e da Austrália. O número de propriedades rurais francesas caiu 75% desde os anos 1970, para 390 mil.
" Somos a principal potência agrícola e estamos ficando para trás " diz Thirouin." A França precisa acordar, caso contrário se tornará um país dependente dos outros.