‘Seja quem for eleito, algum ajuste precisará ser feito’
Entrevista
Entrevista
A SulAmérica Investimentos alcançou este mês R$ 100 bilhões em gestão, o dobro de quatro anos antes. O CEO Marcelo Mello, que também comanda os segmentos de Vida e Previdência da companhia, atribui o resultado à adoção de uma "postura conservadora" diante do patamar elevado da taxa básica de juros (Selic).
Em entrevista ao GLOBO, Mello diz que "algum ajuste precisa ser feito" pelo próximo governo na política fiscal " "independentemente de quem seja" " para conter os juros, mas não enxerga um cenário de ruptura. A SulAmérica projeta a Selic, a taxa básica de juros, a 10% ou 10,5% ao ano em 2028.
O executivo vê numa nova reforma nas aposentadorias uma oportunidade de expansão do mercado de previdência privada e diz que a tributação de 5% de IOF sobre aplicações em VGBL fez o setor desacelerar.
O que explica o forte avanço da SulAmérica Investimentos?
Não somos uma casa de estratégia única. Como não atuamos diretamente com pessoas físicas, crescemos o número de plataformas e instituições financeiras que distribuem nossos produtos. Em 2023, o caso Americanas foi também um gatilho importante de crescimento. O mercado ficou muito machucado, mas não fomos impactados. Tivemos uma postura mais conservadora, saindo do risco de crédito corporativo e indo para o crédito financeiro, reduzindo o risco e aumentando o caixa. Isso também nos colocou em uma posição muito competitiva e foi um passo importante para ganharmos tração com os distribuidores.
A estratégia de crédito privado high grade (de baixo risco) está muito madura, assim como infraestrutura, renda fixa e risco de mercado. Mas não deixamos de investir em estratégias que ainda não têm demanda por parte do investidor por conta do cenário macroeconômico, mas que, em algum momento, terão demanda. Fundos de ações, por exemplo, estão com fluxo negativo do investidor local. Em outubro do ano passado, contratamos um time inteiro. Não tem fluxo, mas estamos plantando essa semente.
Acreditam numa retomada do mercado de Bolsa?
Estamos numa situação delicada do ponto de vista fiscal. Nossas posições hoje estão conservadoras, de curtíssimo prazo. Não temos posições estruturais em juros ou em Bolsa, só posições táticas. Quando olhamos para frente, depois do ciclo atual, em que a relação dívida/PIB sobe 10 pontos percentuais, projetamos que, no próximo governo, independentemente de quem seja, algum ajuste precisará ser feito.
Não trabalhamos com o cenário de ruptura, de dominância fiscal (quando mesmo com juros altos a inflação não cai). Vemos que o governo incumbente talvez faça um ajuste mais tímido, mas terá que fazer algum ajuste. Já um governo de oposição pode fazer um ajuste um pouco mais agressivo, positivo para o mercado. Trabalhamos com uma taxa de juros em patamar um pouco mais baixo do que hoje, porque no mundo inteiro os juros estão mais altos, não vai ser diferente nos mercados emergentes. Taxa de juros nominal no patamar de 10%, 10,5% no longo prazo, em 2028, já estimula o investidor a tomar algum tipo de risco via multimercado ou fundos de ações.
Como avalia as propostas de política fiscal do governo e da oposição?
Não está claro ainda. Os dois candidatos falam em algum ajuste, mas não sabemos o tamanho nem quem será o ministro da Fazenda ou a equipe econômica. Ainda não dá para projetar.
O Brasil tem baixa poupança de longo prazo. O que impede a previdência privada de crescer?
O governo impede, por exemplo, com a medida aprovada no ano passado de tributar em 5% de IOF para o VGBL, que representa 90% da indústria. Isso praticamente acabou com essa indústria. Nossos fluxos para VGBL são desastrosos. No setor é a mesma coisa. O governo tomou essa medida achando que ia arrecadar mais. Mas, além de arrecadar muito menos, porque secou, deixou de ter um potencial demandador para título público.
Para esse mercado se desenvolver mais, precisa haver um esforço do governo em incentivar a poupança de longo prazo, e vimos isso indo na direção incorreta. Tomara que o próximo governo corrija isso.
Como atrair a parcela da população que ainda não acessa esse produto?
Não é uma questão de preço, que hoje é muito reduzido. Acho que é uma questão de que o produto de previdência é de venda consultiva. Não é um produto em que o investidor vai lá, aperta o botão na plataforma e contrata. Tem nuances. Vai entrar em um PGBL ou em um VGBL? Regime progressivo ou regressivo? Não é tão simples a contratação. Plataformas têm simplificado o processo, mas temos que tomar cuidado porque muita simplificação leva àquele cenário de comparação com produtos de curto prazo.
As discussões sobre ajustes na Previdência Social, num cenário de envelhecimento acelerado da população, podem impulsionar a procura por previdência privada?
Na Reforma da Previdência de 2019 vimos uma aceleração da previdência complementar porque o assunto estava em voga. As pessoas estavam mais educadas, interessadas e, inclusive, buscando essa complementariedade. Acho que aqui vai acontecer a mesma coisa. Em algum momento do tempo, essa discussão volta.
A primeira geração que investiu mais intensamente em previdência privada, nos anos 2000, começa a sacar os recursos. Quel é o impacto?
Na medida em que as pessoas conseguem exercitar o que planejaram, é ótimo, porque a previdência está sendo utilizada. O que não é positivo é o investidor que fica girando, portando a reserva de uma seguradora para outra, muitas vezes para produtos muito parecidos. Isso tem acontecido. No nosso histórico, das pessoas que já estão com reservas maduras, 90% decidem fazer resgates programados e só 10% fazem contratação de renda. É muito pouco ainda, quando, a lógica, se pensarmos no que acontece lá fora, é a contrária. Tem um desafio a ser feito.
O país acompanha o caso Master, que usava fundos estaduais de previdência para irregularidades. Isso trouxe desconfiança do investidor no setor?
A indústria de fundos aqui no Brasil, quando comparada com outras indústrias, é muito robusta. Além da regulação, temos uma autorregulação muito forte. Mas não é à prova de balas. Quando pegamos tudo o que aconteceu, houve falhas. A SulAmérica não foi impactada, mas colocamos uma lupa muito mais forte do que antes nos fundos de investimento em que alocamos recursos.
Marcelo Mello / CEO da SulAmerica Investimentos, Vida e Previdência