Apostas certeiras, tragédia e superstição: a saga dos safra
Com uma fortuna calculada em R$ 130,6 bilhões, a família Safra é a segunda mais rica do ...
Com uma fortuna calculada em R$ 130,6 bilhões, a família Safra é a segunda mais rica do país, segundo o ranking da revista Forbes dos bilionários brasileiros. O patrimônio tem origem na cidade de Alepo, no Oriente Médio, onde as atividades dos Safra começaram, com o financiamento de caravanas de comércio e com a venda de moedas de ouro e prata. Essa riqueza foi sendo multiplicada em escala global até os dias de hoje, numa história marcada por sucessos, como a habilidade da família para custodiar fortunas e fazer tacadas financeiras, mas também por episódios que marcaram o clã de forma trágica, como a morte de Edmond Safra num incêndio em seu apartamento em Mônaco, além da briga entre os irmãos Joseph e Moise pela divisão dos negócios.
Apesar da extrema discrição e da aversão a holofotes, essas e outras histórias são relatadas no livro "Os Safra: Uma história" (Companhia das Letras, 456 páginas), do jornalista, escritor e psicanalista Robson Viturino, que chega às livrarias e à internet na próxima terça-feira. Fruto de nove anos de pesquisa e mais de 150 entrevistas, a obra reconstrói a trajetória da dinastia financeira desde as origens mercantis na Síria do século XIX até as recentes disputas pela herança, com detalhes inéditos e análises sobre diversos episódios da vida do clã. A motivação para mergulhar na história surgiu em 2010, durante viagem de Viturino a Israel para produzir reportagem sobre a economia local.
" Ao caminhar pela parte antiga de Jerusalém, deparei com a Praça Safra, local de grande relevância onde se situa a prefeitura. Ao confirmar que o nome fazia referência à mesma família do banco sediado na Avenida Paulista, em São Paulo, tive a dimensão da envergadura internacional da família " contou Viturino em entrevista ao GLOBO.
O autor explicou que não teve ajuda ou acesso a documentos por parte da família,
e que os membros do "núcleo duro" do clã optaram por não dar entrevistas. Mas ele conversou com parentes e conduziu a apuração "pelas bordas", como se diz no jargão jornalístico, buscando informações com pessoas que conviveram ou negociaram com os Safra " incluindo ex-executivos do banco, ex-presidentes da República, ministros, rabinos, advogados e funcionários. A pesquisa também foi baseada em registros históricos, arquivos de jornais, documentos (como relatórios da CIA) e livros raros preservados pela comunidade sefardita, à qual os Safra pertencem.
Em nota, o Banco Safra afirmou que a obra não retrata corretamente os fatos, tampouco a motivação, a personalidade ou a dinâmica dos membros da família Safra.
A narrativa do livro começa com o impacto provocado pela morte de Edmond Safra, em dezembro de 1999, episódio que virou série no streaming. Edmond era o pilar, o mentor e o líder da dinastia, diz Viturino, e exercia o papel de referência e autoridade nos negócios globais da família.
No dia 3 de dezembro de 1999, Edmond e sua enfermeira Vivian Torrente morreram asfixiados pela fumaça tóxica no banheiro blindado (espécie de quarto do pânico) de sua cobertura no edifício Belle Époque, em Monte Carlo. O incêndio foi provocado por seu enfermeiro americano, Ted Maher. Ele acendeu uma vela num cesto de lixo, provocou cortes superficiais em si mesmo com um canivete para simular que o apartamento tinha sido invadido por dois homens encapuzados. Seu objetivo era apagar o fogo, "salvar" o chefe e sair como herói para elevar sua posição na equipe de seguranças.
Mas o desfecho não foi o esperado. O fogo saiu de controle, Edmond, que sofria de Parkinson e tinha episódios de paranoia por conta da medicação, trancou-se no banheiro, acreditando que havia assassinos do lado de fora. A polícia e os bombeiros de Mônaco demoraram para arrombar a estrutura blindada, o que provocou sua intoxicação e a da enfermeira. Embora Ted Maher tenha confessado e sido condenado pela Justiça a dez anos de prisão, o livro investiga teorias e hipóteses para a morte do banqueiro, que circularam na época, como possível retaliação de mafiosos russos e menções a terroristas árabes.
compra de fuscas
Desde o início, os Safra se destacaram pela habilidade de fazer operações de arbitragem de moedas " estratégia que consiste em comprar e vender o mesmo ativo simultaneamente em mercados diferentes para lucrar com a diferença de preço. Jacob Safra, patriarca da família, aproveitava a depreciação da moeda oficial do Império Otomano, em Alepo, para comprá-la a valores baixos pagando com ouro e prata. Depois transportava o dinheiro até Istambul, na Turquia, onde os bancos pagavam o valor nominal. Com o declínio do comércio em Alepo, Jacob migrou para o Líbano em 1913 e fundou seu primeiro banco, o Banque Jacob E. Safra, em Beirute.
A instituição funcionava como casa depositária para a comunidade judaica e comerciantes locais. Jacob consolidou o modelo de "banco guardador", caracterizado pela custódia segura de fortunas, aversão a empréstimos de alto risco e atuação intensa nos mercados globais de câmbio e ouro, características que o banco Safra tem até hoje.
A família fundou e comprou instituições bancárias na Europa, concentrando operações na Suíça, e na década de 1960 inaugurou seu primeiro banco nos EUA, quando Edmond Safra inaugurou o Republic National Bank of New York na Quinta Avenida.
O livro traz fatos inéditos das estratégias dos Safra para atrair clientes. Para expandir a base de correntistas do varejo no banco nova-iorquino, Edmond ofereceu uma TV colorida Zenith de 16 polegadas (ou uma máquina de costura Singer) a quem fizesse ou intermediasse depósito de ao menos US$ 10 mil. A promoção gerou imensas filas na Quinta Avenida, exigindo que a polícia colocasse barricadas.
O Brasil foi destino da família em 1954, que fugia das tensões geopolíticas no Oriente Médio. Jacob Safra trouxe US$ 2 milhões, além de prestígio, experiência e conexões internacionais. Instalaram-se no Rio, mas consideraram que São Paulo tinha mais oportunidades de "negócios financeiros". Em 1957, Jacob obteve autorização para abrir a Safra S.A., financeira que cresceu focando no crédito para compra de automóveis (especialmente Fuscas), com o surgimento da indústria automotiva.
O autor conta episódios em que os Safra mostraram habilidades para ganhar dinheiro. Quando o real perdeu a paridade frente ao dólar, em 1999, Joseph Safra comprou US$ 340 milhões em contratos futuros de câmbio. Ao liquidar a operação, o banco obteve lucro extraordinário de 1.349% naquele mês.
Pavor de ‘mau-olhado’
Viturino lembra que a filantropia e a benemerência constituem uma das marcas da história da família Safra, como a ajuda financeira a hospitais ou para as artes plásticas, mas também o socorro financeiro para compra de passagens aéreas de judeus que queriam fugir da Síria. A obra aborda superstições atribuídas à família, como o fato de o prédio do banco na Avenida Paulista não ter o 13º andar ou o pavor de "mau-olhado" de Edmond, que sempre carregava no bolso um "olho turco".
Os capítulos de discórdia recheiam a saga dos Safra. O primeiro deles, aconteceu quando Jacob Safra decidiu preterir o primogênito Elie (que havia perdido dinheiro em apostas no mercado de ouro e pedido a antecipação de sua herança) para passar a sucessão do Banque Jacob E. Safra ao segundo filho, Edmond. Isso quebrou a tradição sefardita e deixou feridas na família. Depois houve a ruptura de Edmond com os irmãos Joseph e Moise. Edmond vendeu a eles a financeira no Brasil para se distanciar e focar seus negócios na Suíça e nos EUA.
convivência com o poder
Outro foco de tensão foi o casamento de Edmond com Lily Monteverde (depois Safra) em 1976, desaprovado por Joseph por ser uma união fora do círculo sefardita tradicional. Joseph e Moise também se desentenderam sobre a transição dos negócios aos filhos, a terceira geração.
Em 2004, José fundou o Banco J. Safra em frente à sede do Banco Safra na Avenida Paulista para drenar clientes e pressionar o irmão, que acabou vendendo sua fatia de 50% no grupo financeiro para Joseph. A rivalidade entre os herdeiros de Joseph e Vicky Safra ganhou os holofotes, quando um dos filhos, Alberto Safra, descobriu que sua fatia nas holdings internacionais caiu de 28% para 14%.
Segundo o autor Robson Viturino, a relação da família Safra com o poder e com governos no Brasil e no mundo é marcada por pragmatismo, extrema discrição e um trânsito direto nos bastidores da política. Para o autor, os Safra aprenderam que a sobrevivência e a proteção de seus ativos dependiam da capacidade de manter boa convivência com quem estivesse no poder, seja um governo militar ou democrata.
" Joseph mantinha amizade com Fernando Henrique Cardoso, com quem conversava e dava conselhos sobre economia, crises internacionais e diplomacia " diz Viturino. " Ao contrário de outros grandes banqueiros que buscavam exposição ou palanques públicos, os Safra operaram na lógica da convivência silenciosa com o poder, com capacidade de ser ideologicamente flexível.