Domingo, 27 de Septiembre de 2026

A dívida e a coisa pública

BrasilO Globo, Brasil 27 de septiembre de 2026

Gustavo Franco

Gustavo Franco
As pessoas não gostam de pensar que a dívida pública lhes pertence, ou que possa lhes afetar.
Na verdade, as pessoas possuem um entendimento meio confuso sobre essas coisas públicas. A dívida pública com certeza, e a coisa pública mais genericamente.
A coisa pública anda meio alterada recentemente, isso todo mundo entende, mesmo sem conhecer os truques das finanças públicas. Basta ver televisão para se assustar sobretudo quando se fala de dinheiro público.
Pense em banheiro público. Domínio público. Ensino público. Saúde pública. Todo mundo tem acesso.
Me ocorre um verso: "Eu sou de ninguém, sou de todo mundo e todo mundo me quer bem", de uma canção consagrada dos Tribalistas ("Já sei namorar").
Quando é coisa boa, todos querem o desfrute dessa coisa pública que todo mundo gosta.
O orçamento público tem muito dinheiro público, uma coisa que todo mundo gosta.
Tempos atrás, Margareth Thatcher, primeira-ministra da Grã-Bretanha explicava que, ao menos na Inglaterra, não existia essa coisa de dinheiro público. Explicava que havia sim uma coisa correlata, o "dinheiro do contribuinte", com isso criando grande controvérsia.
No Brasil essa tese nunca teve muita tração.
Nesse governo, em particular, adotou-se inclusive uma crença oposta, pela qual o contribuinte vive numa cobertura e paga menos imposto do que deveria.
Em sequência veio a tentativa fracassada de equilibrar as contas públicas pelo lado da receita, seguindo-se ao fracasso quase que proposital de resolver o problema através de corte de gastos.
A experiência demonstrou com clareza que o dinheiro público no Brasil tem dono sim. Cada linha do orçamento público tem um dono e se você meter a faca vai ouvir muito rapidamente o grito do dono.
Bem voltemos à dívida pública.
O nome talvez devesse ser outro: dívida do governo. O gasto com o dinheiro que não existe. O dinheiro que o governo gasta sem ter.
O fato é que passou de 82,5% do PIB.
A grande questão nacional é como isso afeta as pessoas, será (mais) um fetichismo dos economistas?
Uma maneira de responder é com uma conta: a dívida pública (estoque em julho de 2026) era de R$ 9,29 trilhões.
O total de crédito concedido às pessoas físicas era de R$ 4,6 trilhões na mesma data.
Portanto, considerando que somos 213 milhões de brasileiros, cada um de nós devia, em média, em julho, R$ 21,6 mil, em crédito que as pessoas tomaram. Só que tem mais R$ 43,6 mil per capita, devidos "indiretamente", isto é, através do governo, a tal dívida pública.
Ou seja, você deve o triplo do que achava que devia.
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