Empresas usam rastreamento para evitar roubos e falsificação
Tecnologias e sistemas que permitem rastrear a circulação de mercadorias, cruzar ...
Tecnologias e sistemas que permitem rastrear a circulação de mercadorias, cruzar informações de diferentes bases de dados e identificar a procedência de produtos têm reforçado o combate ao mercado ilegal. As aplicações vão da recuperação de cargas e veículos roubados à identificação da origem de ouro e madeira.
" Seguir o produto começa a ganhar a mesma importância de seguir o dinheiro " afirma Jorge Pontes, consultor na área de compliance.
Segundo ele, incorporar mecanismos de rastreabilidade desde a concepção de produtos e serviços faz parte do conceito de "anticrime by design", que busca identificar previamente vulnerabilidades que podem ser exploradas em atividades ilícitas.
Na Nstech, que presta serviço para cadeias de suprimento e logística, o processo começa com a checagem de motoristas, veículos e transportadoras. Depois, a empresa faz monitoramento em trânsito, tanto do veículo quanto da carga, com "iscas" (sensores nas embalagens) para rastreamento. O sistema faz o cruzamento de documentos e registro físico do transporte, capaz de apontar inconsistências.
" Quanto mais pontos de checagem entre a origem e o destino da mercadoria, menor a janela para que ela "suma" do fluxo legal ou entre nele sem rastro documental " diz Cristiano Tanganelli, vice-presidente de inteligência de mercado da Nstech.
No mercado de veículos, sistemas de localização já são utilizados há mais tempo. O Grupo Tracker monitora 200 mil veículos no país, de motocicletas a caminhões, para pessoas físicas, seguradoras e transportadoras. A empresa combina GPS, sensores (para identificar abertura de portas, por exemplo), imobilizadores e dispositivos capazes de transmitir sinais mesmo diante de bloqueadores de frequência. No primeiro semestre deste ano, recuperou 857 veículos, no valor de R$ 109,8 milhões.
Carros e aviões dão apoio
Seu centro de inteligência é apoiado por equipes de rua, com carros e aviões dotados de antenas para detectar sinais emitidos pelos veículos desviados, e a polícia é acionada para a recuperação.
" A média é de 80% " diz o CEO Alvaro Velasco.
Já a tecnologia de grafos (banco de dados para armazenar dados complexos e interconectados) da Neo4J permite cruzar pontos da cadeia de circulação de uma mercadoria, como empresas, pessoas, veículos, documentos fiscais, pagamentos, rotas e pontos de origem e destino.
Com o uso de fontes da Receita Federal e listagens de terroristas e fraudadores, é possível identificar padrões, detectar locais de maior incidência de roubos, pessoas envolvidas, rotas de fuga ou práticas ilegais de funcionários ou pessoas ligadas a eles e redes de empresas indiretamente conectadas por quadros societários.
" O mesmo procedimento é empregado para detectar ilicitudes em licitações " diz Paulo Farias, vice-presidente da Neo4J Latam.
A BAT Brasil é uma das empresas que usam a tecnologia. Em nota, a fabricante destaca que os cigarros ilegais representaram 31% do mercado nacional em 2025, segundo a Ipsos-Ipec. A estratégia combina rastreabilidade, análise de dados, segurança logística e cooperação com autoridades.
"A partir dessa leitura integrada, é possível produzir estudos de impacto, mapear áreas críticas e apoiar medidas de prevenção, fiscalização, recuperação e remediação, em parceria com as autoridades", afirma a empresa na nota.
Mercados sensíveis também avançam. O ouro foi alvo de medidas como o fim da declaração de boa-fé por parte do comprador, que abria brecha para que fosse colocado no mercado formal ouro de garimpo sem atestado de origem, e a instituição de nota fiscal eletrônica.
" Com isso, a produção oficial de ouro de garimpo caiu 81% entre 2022 e 2025 " diz Larissa Rodrigues, diretora do Instituto Escolhas.
Falta entrar em operação o sistema de rastreabilidade definido pelo PL 3025, de 2023, reunindo dados desde a extração até a venda final.
No caso da madeira, o projeto Digitais da Floresta desenvolve o Timber ID, plataforma de análises isotópicas de 964 amostras de árvores de 64 locais da Amazônia, parceria entre The Nature Conservancy (TNC), Imaflora, Google e Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP).
" Os isótopos, uma espécie de impressão digital química, indicam a região de onde a madeira foi extraída " diz Rubens Benini, diretor de florestas da TNC.
A Polícia Federal e o Ibama já cruzam os dados resultantes com o Documento de Origem Florestal (DOF), licença para transporte e armazenamento de produtos emitida pelo Ministério do Meio Ambiente.
*Do Valor Econômico