Eles querem mesmo desacelerar o ritmo da ia?
Os principais líderes da inteligência artificial (IA) soaram novamente um estridente alarme sobre ...
Os principais líderes da inteligência artificial (IA) soaram novamente um estridente alarme sobre os riscos existenciais da tecnologia e concordaram que precisam ajustar o ritmo de desenvolvimento. O tom alarmista não é inédito, o que levanta a questão: será que desta vez eles estão realmente dispostos a cadenciar o avanço da tecnologia?
Especialistas apontam que o setor pode estar, de fato, preocupado com aquilo que está observando, especialmente no que diz respeito à capacidade dos modelos de criar de forma autônoma incidentes cibernéticos.
Apesar disso, o ritmo de lançamentos permanece praticamente inalterado. Dez dias após a carta de Dario Amodei, CEO da Antrhopic, que pede nova cadência para o setor, a empresa e a OpenAI lançaram novos modelos, enquanto a SpaceXAI, de Elon Musk, fez o mesmo um dia antes.
" O desenvolvimento não vai parar. A questão aqui é o quanto esse discurso é bem-intencionado ou só uma jogada para preservar posicionamento. Existe um contexto geopolítico. A China não vai desacelerar por um motivo simples: por lá, a dominância não é dos empresários. Ela é estatal. E a China tem uma necessidade absurda de dominância. Então, ela está com o pé no acelerador " explica Egon Daxbacher, professor do Instituto de Tecnologia e Liderança (Inteli).
robô assassino made in usa
A China rejeitou a desaceleração. Em 14 de setembro, Guo Jiakun, do Ministério das Relações Exteriores do país, disse: "O alarmismo, o confronto e a concorrência desleal só irão atrapalhar o processo de governança global da IA e não servirão aos interesses de ninguém". Frear também não é do interesse do governo Trump, que mantém o incentivo às empresas americanas com a falta de regulação.
A corrida para o fundo do poço foi resumida pelo senador americano Ted Cruz em entrevista ao site Politico: "Se existirem robôs assassinos, eu prefiro que sejam americanos a que sejam chineses".
não é pausar, é cadenciar
As intenções das gigantes americanas podem estar na sutileza das palavras. Em outras ocasiões, líderes e especialistas já usaram de forma mais explícita termos como "pausar". O artigo de Amodei que virou manifesto do setor de IA prefere, inclusive no título, a palavra "cadenciar" " ele faz menção a cadência/cadenciar 36 vezes, contra oito vezes para desaceleração/desacelerar.
No X, Sam Altman, da OpenAI, fez o "chá de revelação", afirmando que "cadenciar" não significa "pausar". Gustavo Macedo, professor do Insper, argumenta que o significado pode ser o oposto do que parece.
" Em uma corrida, cadenciar pode, inclusive, significar acelerar se for adequado para os seus objetivos. É como se as empresas estivessem tentando dizer: já que somos oligopólio tecnocrático, vamos evitar a destruição mútua enquanto enfrentamos o adversário.
Por outro lado, se cadenciar significa não avançar tão rápido quanto antes, as empresas podem se valer disso para equilibrar alguns gargalos do setor. Um deles é o de infraestrutura: hoje, não há recursos computacionais suficientes para continuar avançando no ritmo atual.
Sob o ângulo financeiro, isso se reflete em gastos históricos: só a OpenAI prevê gastar US$ 750 bilhões em infraestrutura até 2030, enquanto a cifra da Anthropic é de US$ 518 bilhões. Cadenciar a IA pode significar um alívio no caixa perto do início das ofertas de ações das empresas, que buscam avaliações entre US$ 1 trilhão e US$ 2 trilhões.
Cadenciar pode até demonstrar boas intenções, mas deixa indefinições. Não há padrões e protocolos sobre as capacidades e os limites dos modelos, o uso de recursos computacionais, a distribuição de recursos internos entre segurança e desenvolvimento, o papel dos auditores externos e o processo de validação feito entre as próprias empresas.