Kayath defende que ajuste fiscal deveria ser gradual
Um dos cotados para ser ministro da Fazenda de um eventual governo de Flávio Bolsonaro ...
Um dos cotados para ser ministro da Fazenda de um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL), o sócio da gestora QMS Capital Marcelo Kayath avaliou, em entrevista ao GLOBO, que um ajuste fiscal de 1,5% do PIB, como sinalizado pela campanha do senador, deveria ser feito de forma gradual.
Ressaltando que não fala em nome da campanha do PL e que não está participando dela, Kayath defende que o processo de controle fiscal precisa ser feito considerando o ponto de partida tanto das contas públicas como da situação da economia brasileira, que está em desaceleração, além do cenário internacional adverso.
" Eu acho que esse 1,5% do PIB é viável, sim, porém não acho que será feito de um ano para o outro. Será feito de maneira gradual " disse. " Tem que ser um processo gradual, até porque há certas despesas que, mesmo que você tenha sucesso em cortar, o Congresso abre em fevereiro, vai demorar um, dois, três meses discutindo as medidas. Tem certas medidas que só vão surtir efeito ao longo do tempo.
Kayath destacou que o caminho pode até ser buscar ajuste maior, de 2,5% do PIB, mas como um processo que se dá ao longo do tempo, que poderia durar mais do que um mandato presidencial.
Redução de emendas
Embora não esteja na campanha e não fale por Flávio Bolsonaro, as declarações de um apoiador do mercado financeiro cogitado por alguns setores como um nome para a área econômica, caso o oposicionista se torne vencedor, ganham importância em um contexto no qual a disputa eleitoral fica acirrada em torno do tema fiscal.
Nos últimos dias, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem feito uma ofensiva para dizer que o ajuste indicado pelo time bolsonarista resultaria em cortes sociais relevantes.
Nesta semana, por exemplo, o ministro da Educação, Leonardo Barchini, disse que cortar 1,5% do PIB em gastos no primeiro ano, ou mesmo em dois, significaria um sacrifício significativo nas despesas discricionárias, que poderia dizimar programas como o Pé-de-Meia, entre outros.
Além disso, a campanha do presidente passou a polarizar com medidas como reajuste do salário mínimo, que interferem diretamente na trajetória fiscal. A lógica da campanha petista era mostrar que, se o conceito é de "tesouraço" ao estilo do presidente argentino Javier Milei " citado também pela campanha bolsonarista ", a população mais pobre seria inevitavelmente prejudicada.
Por conta disso, Flávio assumiu os compromissos públicos de fazer reajuste real do salário mínimo e de manter políticas sociais, como o Bolsa Família e o próprio Pé-de-Meia.
Kayath defendeu que um ajuste fiscal deve começar com choque de gestão e cortes de privilégios, além de uma discussão sobre redução de emendas parlamentares, antes de trabalhar com medidas que demandem sacrifícios da população:
" Acho que o Congresso vai entender que R$ 50 bilhões, em um momento de dificuldade, é um número que precisa ser analisado com cuidado, que precisamos conversar a respeito. Não é possível que o Judiciário pague a conta do ajuste sozinho, que o Executivo e a população mais pobre paguem a conta sozinhos. Temos que distribuir a conta do ajuste em coisas que são justas, em desperdícios, supersalários, penduricalhos, em emendas, em tudo que a gente possa para mostrar à população que, se viermos a exigir algum sacrifício para chegar ao tal 1,5%, estamos fazendo nossa parte " salientou. " Antes de exigir o sacrifício da população, temos que fazer nossa parte.
Avaliar as condições
O economista ressalta que é necessário ter cautela sobre o caminho do ajuste porque, a despeito da percepção de que o quadro fiscal é problemático, devido ao tamanho e à trajetória da dívida, é preciso saber qual será exatamente o ponto de partida de um novo governo. Especialmente em um contexto no qual a gestão atual toma medidas, às vésperas das eleições, que têm impacto fiscal.
Além disso, explicou Kayath, será preciso avaliar as condições da economia, que está perdendo tração:
" Nós temos outra variável que não podemos ignorar: a economia já está parando, já está num ponto de zero a zero ou negativo. Em um cenário de dificuldade econômica, endividamento, com a economia parando, indo para um território negativo, a gente não pode penalizar os programas sociais.