Lunes, 26 de Octubre de 2026

Desafio do brasileiro é expandir laços com eua mesmo com uma secretaria de estado hostil

BrasilO Globo, Brasil 26 de octubre de 2026

lula 4.0 X trump 2.0

lula 4.0 X trump 2.0
Em cenário marcado pela truculência do segundo governo de Donald Trump e pelo acirramento da rivalidade dos Estados Unidos com a China, além do ataque ao multilateralismo, o maior desafio do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva nas relações internacionais será, apontam especialistas ouvidos pelo GLOBO, incrementar os laços com Washington, ainda que pontualmente, e mesmo com uma Secretaria de Estado frontalmente hostil a Brasília.
Professor do Instituto de Relações Internacionais da USP e editor-chefe da CEBRI-Revista, o cientista político Feliciano de Sá Guimarães afirma que o Brasil e os EUA vivem uma rota inevitável de colisão, com interesses políticos, econômicos e energéticos conflitantes a curto e longo prazo. Embate que tende a se intensificar com a reeleição de Lula.
Semana que vem, os americanos também irão às urnas. Com aprovação de apenas 35%, Trump, que deixará a Casa Branca em janeiro de 2029, deve, como mostram as pesquisas, perder o comando da Câmara e provavelmente também do Senado a partir de janeiro. Se confirmada, a mudança enfraquece os republicanos e reduz seu poder de movimentação, com o prometido pente-fino dos democratas e o adiantamento da disputa pela sucessão presidencial em 2028.
" Para o Lula 4.0, a melhor estratégia é se aproveitar deste cenário interno de enfraquecimento de Trump para ganhar tempo, buscar isolar o secretário de Estado, Marco Rubio, e acenar com possíveis cessões em pontos específicos, como o etanol, e até discutir um investimento em data centers aqui, algo que pode interessar Washington. Também é urgente modificar a maneira como a representação brasileira atua na capital americana, com maior participação do setor empresarial e do comércio, em um sinal de que se entendeu melhor como funciona a diplomacia do Trump 2.0 " afirma Sá Guimarães ao GLOBO.
negociações de tarifaços
O próprio reconhecimento da vitória de Lula pelo governo Trump, afirma o professor da USP, passa necessariamente pela lógica do Partido Republicano, interessado em saber o que Washington ganhará, de concreto, com o anúncio. Negociadores dos dois países voltam mês que vem a tratar formalmente dos tarifaços impostos pelos EUA ao Brasil desde o ano passado.
Um dos advogados de Trump, Martin De Luca, criticou ontem em suas redes sociais, a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, de prorrogar a votação no Brasil até as 19h. Até o fim desta edição, não houve reconhecimento oficial da vitória pela Casa Branca.
" E aí também há uma dimensão da política interna americana. Observadores americanos estão prestando enorme atenção em como Trump e Rubio lidam com o resultado oficial das eleições presidenciais brasileiras. A movimentação deles é vista como um teste para como a Casa Branca reagirá a uma eventual vitória substantiva do Partido Democrata semana que vem " afirma o editor-chefe da CEBRI Revista.
Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior, o diplomata Rubens Barbosa, que foi embaixador do Brasil nos EUA, é da mesma opinião. Ele frisa que as reações oficiais da Secretaria de Estado sobre questionamentos de congressistas do Partido Democrata sobre a interferência da Casa Branca no pleito brasileira enfatizavam o compromisso em respeitar eleições "justas". Esse adjetivo pode ser interpretado de modo diverso a partir de interesses específicos, notadamente quando a diferença de votos é estreita e há problemas no processo, como foi o caso da extensão por duas horas do voto no país após a denúncia de que ônibus não saíram das garagens em diversas cidades do país, entre elas Salvador e São Paulo. Barbosa destaca, ainda, que o Itamaraty deveria, no novo governo Lula, que deve dar continuidade à política externa comandada pelo chanceler Mauro Vieira, "prestar mais atenção ao que interessa".
" Especialmente após o anúncio da Estratégia de Segurança Nacional de Washington, no fim do ano passado, com a proclamação de que as Américas são área de influência de Washington, deveríamos investir ainda mais nas relações com nossos vizinhos. Deixar para lá aspirações de mediar a guerra entre Rússia e Ucrânia e se aproveitar do fato de que os países da América Latina giraram à direita, mas não formam um bloco uniforme para investir em relações específicas com cada um deles, considerando suas realidades específicas " afirmou o diplomata ao GLOBO.
relações com vizinhos
Um dos nós para o Lula 4.0 será a relação com nosso parceiro comercial mais importante na região, a Argentina. O presidente Javier Milei apoiou publicamente a candidatura do senador Flávio Bolsonaro, pôs dúvidas sobre a lisura do processo eleitoral brasileiro e defende que os países do Mercosul passem a poder negociar com outras nações individualmente e não em bloco, como defende Brasília. Tal qual Trump, ele está enfraquecido internamente, com popularidade em baixa, e disputa a reeleição em um ano.
"A aproximação com Milei é a mais difícil, pelas diferenças ideológicas, mas há caminhos com outros presidentes, entre eles José Antonio Kast, do Chile, Rodrigo Paz Pereira, da Bolívia, e Keiko Fujimori, do Peru " afirma Barbosa.
Uma movimentação inteligente, argumenta, seria a entrada do Lula 4.0 no Compromisso Regional de Santiago contra o Crime Organizado, liderado pelo Chile, e que já conta com a participação dos governos de Argentina, Bolívia, Equador e Peru. Seria uma maneira de se enfrentar o isolamento imposto por Washington ao país após a criação do Escudo das Américas, idealizado pela Casa Branca, para o qual o Brasil não foi convidado. A coalizão inclui quase todos os países fronteiriços ao Brasil e é oficialmente voltada para o combate do narcotráfico. Prevê ações militares conjuntas, dentro da mesma lógica dos ataques feitos a embarcações no Caribe e no Oceano Pacífico pelos EUA a partir de agosto do ano passado.
Especialista em segurança nacional, o pesquisador da FGV e professor do Ibmec Rio Leonardo Paz aponta para um cenário regional especialmente complexo, com Washington, ao menos nos próximos anos, atuando para um realinhamento contra Brasília. Com o Escudo das Américas, há a possibilidade de sanções a cidadãos e empresas que o governo americano identifique como parceiros de facções criminosas consideradas terroristas pela Casa Branca, como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital.
" Como o novo governo lidará com ações militares dos EUA, inclusive com drones, dentro do território brasileiro? E com a eventualidade de tropas americanas em nossas fronteiras, após tratados com Paraguai e Bolívia? A tensão, em um primeiro momento, deve aumentar muito " afirma Paz.
Por outro lado, o professor afirma que o apaziguamento pode vir da negociação direta entre os dois presidentes e da própria inconsistência de Trump, ainda mais provável com ele enfraquecido.
" Não é improvável Trump perceber que é melhor negociar com Lula do que seguir apoiando o bolsonarismo após mais uma derrota e aliviar a pressão, centrando seu interesse na região na Venezuela e em Cuba, e, fora das Américas, no Irã, em Israel, Rússia, China, além da atenção que precisará dar à sua própria sucessão nos EUA " afirma Paz.
união europeia e brics
A expectativa, apontam os especialistas, é de continuidade nas relações com a União Europeia, com a busca da implementação do acordo com o Mercosul, além do incremento de parcerias com atores que buscam, tal qual o Brasil, fortalecer o multilateralismo, entre eles Canadá, México, Japão e Coreia do Sul. O Brics deve seguir no radar como fórum de contraposição à influência de Washington, ainda que com avanços práticos lentos, frisa Leonardo Paz, devido ao cenário altamente polarizado no tabuleiro geopolítico global. A cientista política Julia Thomson, analista no Brasil da consultoria americana Eurasia Group, referência na avaliação de risco geopolítico para o mercado, concorda. E aponta para a importância de se evitar o risco de a hostilidade do Trump 2.0, inadvertidamente desequilibrar a balança de forma desproporcional na direção de Pequim.
" O êxito da política externa do Lula 4.0 será medido pela capacidade de detectar e explorar os melhores e mais realistas caminhos para se negociar com Washington, por exemplo, com o aumento de exceções ao tarifaço, que esta Casa Branca não irá terminar " afirma Thomson.
La Nación Argentina O Globo Brasil El Mercurio Chile
El Tiempo Colombia La Nación Costa Rica La Prensa Gráfica El Salvador
El Universal México El Comercio Perú El Nuevo Dia Puerto Rico
Listin Diario República
Dominicana
El País Uruguay El Nacional Venezuela