Desafio do brasileiro é expandir laços com eua mesmo com uma secretaria de estado hostil
lula 4.0 X trump 2.0
lula 4.0 X trump 2.0
Em cenário marcado pela truculência do segundo governo de Donald Trump e pelo acirramento da rivalidade dos Estados Unidos com a China, além do ataque ao multilateralismo, o maior desafio do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva nas relações internacionais será, apontam especialistas ouvidos pelo GLOBO, incrementar os laços com Washington, ainda que pontualmente, e mesmo com uma Secretaria de Estado frontalmente hostil a Brasília.
Professor do Instituto de Relações Internacionais da USP e editor-chefe da CEBRI-Revista, o cientista político Feliciano de Sá Guimarães afirma que o Brasil e os EUA vivem uma rota inevitável de colisão, com interesses políticos, econômicos e energéticos conflitantes a curto e longo prazo. Embate que tende a se intensificar com a reeleição de Lula.
Semana que vem, os americanos também irão às urnas. Com aprovação de apenas 35%, Trump, que deixará a Casa Branca em janeiro de 2029, deve, como mostram as pesquisas, perder o comando da Câmara e provavelmente também do Senado a partir de janeiro. Se confirmada, a mudança enfraquece os republicanos e reduz seu poder de movimentação, com o prometido pente-fino dos democratas e o adiantamento da disputa pela sucessão presidencial em 2028.
" Para o Lula 4.0, a melhor estratégia é se aproveitar deste cenário interno de enfraquecimento de Trump para ganhar tempo, buscar isolar o secretário de Estado, Marco Rubio, e acenar com possíveis cessões em pontos específicos, como o etanol, e até discutir um investimento em data centers aqui, algo que pode interessar Washington. Também é urgente modificar a maneira como a representação brasileira atua na capital americana, com maior participação do setor empresarial e do comércio, em um sinal de que se entendeu melhor como funciona a diplomacia do Trump 2.0 " afirma Sá Guimarães ao GLOBO.
negociações de tarifaços
O próprio reconhecimento da vitória de Lula pelo governo Trump, afirma o professor da USP, passa necessariamente pela lógica do Partido Republicano, interessado em saber o que Washington ganhará, de concreto, com o anúncio. Negociadores dos dois países voltam mês que vem a tratar formalmente dos tarifaços impostos pelos EUA ao Brasil desde o ano passado.
Um dos advogados de Trump, Martin De Luca, criticou ontem em suas redes sociais, a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, de prorrogar a votação no Brasil até as 19h. Até o fim desta edição, não houve reconhecimento oficial da vitória pela Casa Branca.
" E aí também há uma dimensão da política interna americana. Observadores americanos estão prestando enorme atenção em como Trump e Rubio lidam com o resultado oficial das eleições presidenciais brasileiras. A movimentação deles é vista como um teste para como a Casa Branca reagirá a uma eventual vitória substantiva do Partido Democrata semana que vem " afirma o editor-chefe da CEBRI Revista.
Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior, o diplomata Rubens Barbosa, que foi embaixador do Brasil nos EUA, é da mesma opinião. Ele frisa que as reações oficiais da Secretaria de Estado sobre questionamentos de congressistas do Partido Democrata sobre a interferência da Casa Branca no pleito brasileira enfatizavam o compromisso em respeitar eleições "justas". Esse adjetivo pode ser interpretado de modo diverso a partir de interesses específicos, notadamente quando a diferença de votos é estreita e há problemas no processo, como foi o caso da extensão por duas horas do voto no país após a denúncia de que ônibus não saíram das garagens em diversas cidades do país, entre elas Salvador e São Paulo. Barbosa destaca, ainda, que o Itamaraty deveria, no novo governo Lula, que deve dar continuidade à política externa comandada pelo chanceler Mauro Vieira, "prestar mais atenção ao que interessa".
" Especialmente após o anúncio da Estratégia de Segurança Nacional de Washington, no fim do ano passado, com a proclamação de que as Américas são área de influência de Washington, deveríamos investir ainda mais nas relações com nossos vizinhos. Deixar para lá aspirações de mediar a guerra entre Rússia e Ucrânia e se aproveitar do fato de que os países da América Latina giraram à direita, mas não formam um bloco uniforme para investir em relações específicas com cada um deles, considerando suas realidades específicas " afirmou o diplomata ao GLOBO.
relações com vizinhos
Um dos nós para o Lula 4.0 será a relação com nosso parceiro comercial mais importante na região, a Argentina. O presidente Javier Milei apoiou publicamente a candidatura do senador Flávio Bolsonaro, pôs dúvidas sobre a lisura do processo eleitoral brasileiro e defende que os países do Mercosul passem a poder negociar com outras nações individualmente e não em bloco, como defende Brasília. Tal qual Trump, ele está enfraquecido internamente, com popularidade em baixa, e disputa a reeleição em um ano.
"A aproximação com Milei é a mais difícil, pelas diferenças ideológicas, mas há caminhos com outros presidentes, entre eles José Antonio Kast, do Chile, Rodrigo Paz Pereira, da Bolívia, e Keiko Fujimori, do Peru " afirma Barbosa.
Uma movimentação inteligente, argumenta, seria a entrada do Lula 4.0 no Compromisso Regional de Santiago contra o Crime Organizado, liderado pelo Chile, e que já conta com a participação dos governos de Argentina, Bolívia, Equador e Peru. Seria uma maneira de se enfrentar o isolamento imposto por Washington ao país após a criação do Escudo das Américas, idealizado pela Casa Branca, para o qual o Brasil não foi convidado. A coalizão inclui quase todos os países fronteiriços ao Brasil e é oficialmente voltada para o combate do narcotráfico. Prevê ações militares conjuntas, dentro da mesma lógica dos ataques feitos a embarcações no Caribe e no Oceano Pacífico pelos EUA a partir de agosto do ano passado.
Especialista em segurança nacional, o pesquisador da FGV e professor do Ibmec Rio Leonardo Paz aponta para um cenário regional especialmente complexo, com Washington, ao menos nos próximos anos, atuando para um realinhamento contra Brasília. Com o Escudo das Américas, há a possibilidade de sanções a cidadãos e empresas que o governo americano identifique como parceiros de facções criminosas consideradas terroristas pela Casa Branca, como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital.
" Como o novo governo lidará com ações militares dos EUA, inclusive com drones, dentro do território brasileiro? E com a eventualidade de tropas americanas em nossas fronteiras, após tratados com Paraguai e Bolívia? A tensão, em um primeiro momento, deve aumentar muito " afirma Paz.
Por outro lado, o professor afirma que o apaziguamento pode vir da negociação direta entre os dois presidentes e da própria inconsistência de Trump, ainda mais provável com ele enfraquecido.
" Não é improvável Trump perceber que é melhor negociar com Lula do que seguir apoiando o bolsonarismo após mais uma derrota e aliviar a pressão, centrando seu interesse na região na Venezuela e em Cuba, e, fora das Américas, no Irã, em Israel, Rússia, China, além da atenção que precisará dar à sua própria sucessão nos EUA " afirma Paz.
união europeia e brics
A expectativa, apontam os especialistas, é de continuidade nas relações com a União Europeia, com a busca da implementação do acordo com o Mercosul, além do incremento de parcerias com atores que buscam, tal qual o Brasil, fortalecer o multilateralismo, entre eles Canadá, México, Japão e Coreia do Sul. O Brics deve seguir no radar como fórum de contraposição à influência de Washington, ainda que com avanços práticos lentos, frisa Leonardo Paz, devido ao cenário altamente polarizado no tabuleiro geopolítico global. A cientista política Julia Thomson, analista no Brasil da consultoria americana Eurasia Group, referência na avaliação de risco geopolítico para o mercado, concorda. E aponta para a importância de se evitar o risco de a hostilidade do Trump 2.0, inadvertidamente desequilibrar a balança de forma desproporcional na direção de Pequim.
" O êxito da política externa do Lula 4.0 será medido pela capacidade de detectar e explorar os melhores e mais realistas caminhos para se negociar com Washington, por exemplo, com o aumento de exceções ao tarifaço, que esta Casa Branca não irá terminar " afirma Thomson.