Calor recorde deixa famílias à beira do corte de energia
Quando Genia Weitz, de 58 anos, saiu para enfrentar o sol implacável do estado americano ...
Quando Genia Weitz, de 58 anos, saiu para enfrentar o sol implacável do estado americano de Oklahoma, no mês passado, ela encontrou uma nova carta na caixa de correio. "Aviso de corte de energia", dizia. A conta somava US$ 1.340,96 (cerca de R$ 7.270), muito acima de sua renda mensal. As regras estaduais impediam cortes quando o calor passava de 38,3°C, mas a temperatura havia caído para 37,2°C, e ela tinha nove dias para pagar.
Genia e o marido, Daryl Mason, haviam se confinado à sala de estar da casa de três quartos para economizar eletricidade. Cobertores pendurados nas portas retinham o ar frio de um ar-condicionado de janela. Ela dependia de um aparelho de oxigênio; ele usava um aparelho médico (CPAP) para tratar a apneia do sono. Genia dormia no sofá e Mason numa poltrona reclinável. Às vezes, os netos se amontoavam em colchões na sala. Nas noites mais úmidas, o calor e a umidade mantinham o ar-condicionado ligado até de manhã.
" Não consigo respirar se ficar sem oxigênio " diz Genia . " Acho que não aguentaria passar uma única noite.
" Provavelmente teríamos um AVC de qualquer maneira com todo esse calor " afirma Mason. " Se perdermos este cômodo, não vamos sobreviver.
Com a chegada do outono nos EUA, chegou também a conta do verão mais quente já registrado no país. As temperaturas dos últimos três meses ficaram 1,7°C acima da média, superando as do verão de 1936, durante o desastre de Dust Bowl, e as da onda de calor de 2021. Dezenas de milhões de pessoas não conseguem pagar pelo ar-condicionado que as protegeu do calor. Dados federais indicam que um em cada seis domicílios está com contas de serviços públicos atrasadas. Mais de uma dúzia de estados restringem cortes de energia durante ondas de calor. Por isso, os desligamentos costumam atingir o pico em outubro, quando a crise climática vira cobrança de dívidas.
plano pré-pago
A Companhia de Serviços Públicos de Oklahoma (PSO, na sigla em inglês), responsável pelo fornecimento de energia elétrica, já havia cortado a luz de Genia antes. A empresa havia informado que também enfrentava custos crescentes: com combustíveis e equipamentos, modernização da rede elétrica e com o aumento da demanda provocado por eventos climáticos extremos e por novos grandes consumidores, como centros de dados usados para inteligência artificial. Embora suas tarifas ainda estivessem abaixo da média nacional, a PSO atribuiu boa parte das contas elevadas do verão ao uso contínuo do ar-condicionado. Genia percebeu que pagava quase US$ 500 (R$ 2.720) por mês para manter um único cômodo habitável.
Ela soube que clientes com problemas graves de saúde poderiam pedir mais 30 dias antes do corte e levou um formulário ao médico. O documento, porém, esclarecia que uma situação de risco à vida não perdoava a dívida, apenas adiava o pagamento.
Com o carro quebrado na garagem, Genia pegou um ônibus até a clínica e conversou com a motorista, Sondra Beck, antiga colega numa fábrica de frangos. Sodra também devia US$ 700 (R$ 3.810) e disse que os cortes estavam se tornando comuns. Genia, que sofre de artrite nas mãos, tem próteses nos dois joelhos e uma lesão nas costas, recebe US$ 860 (R$ 4.660) mensais em benefícios por incapacidade.
A filha mais velha de Genia, Shenia Mick, de 36 anos, também pagava contas superiores a US$ 500. Embora ganhasse mais de US$ 80 mil (R$ 433 mil) anuais em uma empresa de engenharia em Tulsa, ajudava a mãe com despesas e pagava quase US$ 1.500 (R$ 8.100) de aluguel. Durante o verão, sua casa também ficou perigosamente quente: dois aparelhos antigos não davam conta das altas temperaturas, e ela chegou a sentir tontura e náusea ao tentar cozinhar.
Pegou dinheiro emprestado para comprar outro ar-condicionado portátil, mas o aparelho aumentou o consumo de eletricidade.
Certa tarde, Genia mostrou a conta de luz à nora, Autumn Cooper, de 24 anos, que havia escolhido um plano pré-pago da PSO, que permite fazer pequenos depósitos na conta a cada poucos dias. Enquanto há saldo, a família pode usar a eletricidade; quando o dinheiro acaba, a energia é cortada. Autumn, que tem cinco filhos e estuda para obter uma certificação em enfermagem, trabalha nos fins de semana em uma instituição de cuidados, ganhando US$ 16 (R$ 86) por hora. Também vende roupas infantis usadas e faz pequenos serviços para conseguir manter a luz ligada.
Em julho, chegou a fazer três pagamentos no mesmo dia. No mês seguinte, consumia em média US$ 12,29 (R$ 66) por dia em eletricidade. Certa vez, mostrou a Genia que restavam apenas US$ 2,46 (R$ 13) no saldo, o suficiente para algumas horas de energia.
Autumn começou a pesquisar as tarifas e a procurar uma solução melhor. Oklahoma vem atraindo empresas como Google e Meta para a construção de centros de dados, com incentivos fiscais e terrenos baratos. O governador Kevin Stitt afirmou no ano passado que queria transformar o estado na "capital mundial dos centros de dados de alta tecnologia". Um projeto nos arredores de McAlester consumiria, em plena capacidade, mais eletricidade por semana do que todas as residências da cidade em um ano.
taxa mais alta
A PSO planeja investir US$ 1,2 bilhão (R$ 6,5 bilhões) em capacidade de geração e armazenamento de energia para atender à demanda crescente de residências e empresas. Uma nova lei estadual pretende obrigar os maiores consumidores a pagar sua parte, mas alguns custos para ampliar a oferta já haviam sido repassados aos clientes comuns.
Em 2024, segundo os dados federais mais recentes, a PSO cortou a energia 58 vezes para cada 100 clientes residenciais " a taxa mais alta entre as concessionárias privadas do país. A empresa afirma que a maioria dos desligamentos ocorre em um pequeno grupo de contas pré-pagas, suspensas quando o saldo fica negativo e religadas poucos minutos após o pagamento.