Plano de governar com as ruas e as redes eleva custo político de medidas de ajuste
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Ao pedir no canal de WhatsApp "Exército do Lula" mobilização da sociedade civil junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) na discussão sobre o fim das bets, o presidente Lula deu a primeira mostra de que pretende usar, no novo mandato, o ativo das ruas e das redes conquistado no 2º turno das eleições.
E isso tem implicações não só políticas, mas também econômicas. Afinal, manter a base de apoio popular motivada a proteger o governo e pressionar as instituições pela efetivação da agenda passa a ser um objetivo do Planalto.
Nesse contexto, o risco é que, querendo governar com maior participação e mobilização social, Lula se torne mais receoso de tomar medidas que possam ser vistas como impopulares. A vitória histórica no 2º turno e a lógica de governar mais com o povo aumentaram o custo político de um "estelionato eleitoral" ou mesmo de medidas mal interpretadas.
Por outro lado, Lula sabe do risco de perder o controle da economia e de a inflação subir, o que seria altamente danoso para a percepção sobre seu governo.
O governo passa, no campo econômico, por uma fase de alta incerteza. A celeuma que ganhou corpo nos últimos dias e se instalou no debate econômico em torno da proposta para reduzir drasticamente os juros no Brasil, feita pelo economista André Lara Resende, reflete muito esse quadro de dúvidas. Intencionalmente ou não, as inquietações sobre os rumos da economia estão sendo alimentadas pelo próprio Lula, ainda que a chance de medida dessa natureza ser adotada pelo governo seja remota, a despeito do forte apoio em segmentos do petismo, especialmente das alas mais à esquerda.
Após o fechamento das urnas, têm sido esperados pelos agentes econômicos, e não só pelo mercado financeiro, sinais mais concretos sobre os rumos da nova administração. Até agora, porém, o chefe do Planalto falou pouco sobre o assunto, não desautorizou a corrida especulativa em torno de possíveis nomes para o Ministério da Fazenda e tampouco deu informações concretas sobre o rumo da política fiscal.
No início da campanha, ele dava sinais de entender a necessidade de ser mais contido no novo ciclo político. Mas, após disputa acirrada e que no 2º turno teve o ataque ao plano fiscal do adversário como um dos flancos de ação, Lula indica que pesará ainda mais as decisões que afetam a trajetória das contas públicas.
Desde a semana passada tem havido deterioração substancial do mercado. No primeiro momento, pela reversão das apostas de que Flávio Bolsonaro venceria o pleito. Mas a piora adicional ocorre porque falta clareza sobre o rumo do governo.
A equipe econômica tem buscado acalmar as coisas, reforçando o compromisso de trajetória de resultado primário crescente e que chegue ao fim do governo em 1,5% do PIB. Isso representaria ajuste de quase 2 pontos porcentuais do PIB em quatro anos. Não é pouco e melhoraria o quadro.
O problema é que o mercado ainda não vê motivos para acreditar na efetivação dessa trajetória, especialmente porque ela demanda medidas de ajuste, sobretudo nas despesas obrigatórias. E essas ações precisam de aval do presidente, que ainda sequer deu uma palavra pública mais forte de respaldo aos seus auxiliares da economia, o que poderia ajudá-los no esforço de jogar água na fervura.