‘Vozes do agro’: crise no setor de fertilizantes deve continuar
O Brasil deve aumentar ainda mais a dependência de fertilizantes importados, e a aplicação ...
O Brasil deve aumentar ainda mais a dependência de fertilizantes importados, e a aplicação de alguns insumos deve diminuir no campo, com impacto na produtividade da soja. A afirmação foi feita ontem pelo country manager da Mosaic no Brasil, Eduardo Monteiro, durante o "Vozes do Agro", evento realizado por Globo Rural e o Valor, em São Paulo, para discutir os principais desafios do setor.
" Até o ano passado, o Brasil importava 85% do que consumia em fertilizantes. Este ano, a dependência vai aumentar " disse o executivo, lembrando que a explicação para esse cenário está nas duas guerras em regiões fornecedoras de insumos para fertilizantes, a Ucrânia e o Oriente Médio.
LUPION: ‘META UTÓPICA’
Monteiro disse que a situação mais crítica é a dos fosfatados. O custo elevado do enxofre está prejudicando de 30% a 40% da produção mundial de fósforo. No Brasil, a importação de enxofre neste ano deve cair 50%, afirmou. É um indicativo de que a produção de fósforo deve ter uma queda ainda maior, já que o enxofre é usado na extração do fósforo das rochas fosfáticas.
" Nosso custo de produção é muito oneroso e a indústria se viu inviabilizada de continuar sua produção " lamentou Monteiro, destacando que essa era a matéria-prima da qual o Brasil menos dependia de importações antes do início da guerra no Irã.
Também no evento, o presidente da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), deputado federal Pedro Lupion (Republicanos-PR), ressaltou que os juros altos impedem investimentos do setor. Ele disse que as dificuldades de obter licenciamento ambiental atrasam projetos de extração mineral que podem incentivar a produção. E avaliou como "utópica" a medida prevista no Profert de um percentual mínimo de fertilizantes nacionais nas misturas.
" Os custos de produção de fertilizantes são muito maiores e muito mais difíceis do que a importação desses produtos. É algo que a gente ainda vai levar muito tempo, não é nem médio, mas longo prazo, para conseguir ter essa produção aqui e reduzir a dependência " argumentou.
Em apresentação sobre o cenário global para os fertilizantes, Arián Krakov, sócio da consultoria Bain & Company, avaliou que a alta de preço dos insumos, por causa da guerra no Oriente Médio, é mais um componente de uma "tempestade perfeita" para o agronegócio: incerteza causada pelos juros altos e a dificuldade de crédito, oscilação de cotações de commodities e preocupações com o fenômeno El Niño.
Krakov destacou que há projetos de aumento de capacidade de produção de fertilizantes em diversas regiões do mundo até 2030. Mas devem ser insuficientes. No caso da ureia, o volume previsto, considerando novas unidades industriais, ainda será 21% menor que o nível pré-guerra no Golfo.
" Isso não se resolve nem nesta safra, nem na próxima " disse Krakov.