Miércoles, 12 de Agosto de 2020

Briga xp-itaú acelera debate sobre futuro da oferta de investimento

BrasilO Globo, Brasil 12 de agosto de 2020

O "bate-boca" público entre Itaú e XP sobre os modelos de investimento evidenciou algo mais que ...

O "bate-boca" público entre Itaú e XP sobre os modelos de investimento evidenciou algo mais que uma picuinha entre sócios. Com os juros nas mínimas históricas, milhões de novos investidores estão tendo seu primeiro contato com um mercado no qual os custos assumiram um peso inédito na rentabilidade final. Diante disso, a transparência ganha o centro do debate, já que saber as razões pelas quais determinado produto é oferecido se tornou crucial para a evolução do patrimônio. Segundo gestores, especialistas e acadêmicos, trata-se de uma discussão inadiável, que só tende a beneficiar os investidores.
A briga entre o maior banco e a maior corretora do país começou há duas semanas, com um anúncio veiculado pelo Itaú no intervalo do Jornal Nacional. A propaganda criticava o modelo de remuneração dos agentes autônomos de investimento (AAI), que recebem comissões diferentes por cada tipo de produto que oferecem ao cliente.
A peça dirigida por Fernando Meirelles não citava a XP, mas a "carapuça serviu" de imediato, já que mais de 80% dos agentes são vinculados à corretora de Guilherme Benchimol.
Crítica antiga
A crítica é antiga, porém. Nos últimos anos, firmas concorrentes da XP vinham argumentando que os agentes autônomos trabalham muito mais para o próprio bolso e para a XP do que para o cliente. Isso porque os incentivos estariam errados, levando-os a oferecer produtos que pagam as comissões mais vantajosas, em vez de aqueles que fazem mais sentido para os objetivos do investidor.
O símbolo desse conflito seria o Certificado de Operações Estruturadas (COE), um papel com uma pletora de custos embutidos de difícil compreensão pelo cliente, mas que rende ao agente as comissões mais elevadas.
A XP contra-atacou, chamando a atenção para os conflitos de interesse dos gerentes de bancos na hora de oferecer investimentos. Em vez de receberem comissões, esses profissionais têm uma parte do salário vinculada ao cumprimento de metas na oferta de produtos. A crítica também é antiga e, nesse caso, o grande símbolo é o título de capitalização. De vantagem duvidosa para o cliente e sequer considerado investimento por especialistas, o título sempre foi sugerido pelos gerentes.
consulta pública
Segundo especialistas, o duelo serviu para escancarar o modelo de remuneração do intermediário.
" Não existe consultoria financeira gratuita. Então, o cliente tem o direito de perguntar e saber como o profissional está sendo remunerado e por que está oferecendo determinado produto. Cabe ao cliente, em última instância, saber por que deve aceitar aquela proposta " afirma Ricardo Rocha, professor de Finanças do Insper.
Para Rocha, quando o investidor é protagonista na relação com o intermediário, fica reduzida a possibilidade de conflito nessa relação.
Mesmo assim, órgãos reguladores estão se debruçando sobre o tema. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu, no ano passado, um consulta pública para aprimorar o modelo dos agentes autônomos. Na consulta, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), que autorregula os fundos de investimento, propôs o fim da exclusividade dos agentes a uma única instituição financeira na oferta de valores mobiliários, como ações e debêntures.
A Anbima também sugere maior transparência em relação às comissões recebidas pelos agentes autônomos, dos consultores de investimento e outros profissionais que atuam na distribuição de produtos das instituições financeiras, além da abertura dos custos envolvidos nas operações.
A crítica nesse modelo é que há incentivo para que eles privilegiem os que pagam a maior comissão, sem necessariamente oferecer ao investidor o produto mais adequado. São dois passos, entende a entidade, importantes para minimizar conflitos entre esses profissionais e os clientes.
" Esses profissionais têm que ser remunerados. Mas repassar a informação de como eles são remunerados dá ao cliente poder para tomar a decisão correta na hora de investir " diz Luiz Henrique Carvalho, gerente de representação de distribuição da Anbima.
A expectativa é que ainda este ano a CVM publique uma nova regra a respeito.
Para Roberto Lee, presidente da gestora Avenue, com sede em Miami, só com ação dos agentes regulatórios do mercado de capitais brasileiro será possível ter mais transparência na remuneração dos intermediários. Ele lembra que, em 30 de junho, entrou em vigor nos EUA o Regulament Best Interest, ou Reg BI, em que o corretor terá que divulgar muito mais sobre o que ele aconselha comprar ou vender.
O Reg BI exige que os intermediários ajam em proveito de seus clientes e identifiquem conflitos de interesse, incluindo incentivos financeiros que possam existir nos produtos que estão vendendo. Se não houver transparência e o investidor tiver algum prejuízo, o intermediário pode ser punido.
" É preciso que os agentes, gerentes ou consultores financeiros coloquem o interesse do cliente acima de tudo. Nos EUA, prevalece a figura do advisor (uma espécie de gestor de carteira de investimentos), que é remunerado pelo cliente " explica Lee.
fim do ‘rebate’
Independentemente de mudanças regulatórias, novos concorrentes estão explorando as fragilidades dos modelos dos bancos e da XP, propondo uma alternativa que, segundo eles, seria mais transparente.
Na Vitreo, o cliente tem acesso a fundos exclusivos da gestora, sem intermediário comissionado, porque a compra é feita diretamente na plataforma da empresa. Na Warren, a única remuneração da corretora é a taxa de gestão da carteira, que varia de 0,5% a 0,7%, de acordo com o patrimônio investido.
Na própria Avenue, se o cliente quiser uma carteira de ações americanas indicada por um especialista da empresa, paga US$ 20 por isso.
" Na Inglaterra, o modelo prevê que o cliente remunere o profissional. O chamado "rebate" foi abolido " diz Patrick O’Grady, sócio-fundador da Vitreo.
O "rebate" é um dos tipos de comissões pagas aos agentes autônomos pela indicação de produtos. Tito Gusmão, presidente da Warren, conta que o "rebate" recebido pela gestora na distribuição de um fundo gerido por terceiros é inteiramente repassado ao cliente. A Warren tem 400 produtos financeiros, e apenas sete são próprios.
A chegada do chamado open banking, uma plataforma que vai permitir o acesso autorizado a dados de clientes de bancos ou fintechs, também vai contribuir para a maior transparência no segmento financeiro, dizem os especialistas.
Para Guilherme Assis, fundador da Gorila, uma plataforma que agrega informações sobre investimentos, com o open banking, bancos e corretoras deverão repassar com maior frequência informações sobre rentabilidade dos produtos.
" Com a abertura de informações, como taxas embutidas nos produtos, as pessoas vão ter numa mesma base de comparação produtos como ações ou um COE (Certificado de Operações Estruturadas), por exemplo. Taxas muito elevadas se traduzem numa rentabilidade ruim. E, no final, o que importa para o cliente é a rentabilidade de cada produto " afirma Assis.