Viernes, 18 de Septiembre de 2020

Volta pós-covid pode trazer risco ao coração

BrasilO Globo, Brasil 18 de septiembre de 2020

atletas em alerta

atletas em alerta
Um histórico de atleta não assegura menos sintomas na contaminação pelo coronavírus e estudos recentes mostram que também não é garantia de que o jogo foi vencido após a recuperação da Covid-19. Pesquisas apontam a miocardite " inflamação do coração que é uma das principais causas de morte súbita em atletas abaixo dos 35 anos " como uma das sequelas da doença, mesmo em pessoas assintomáticas ou com sintomas leves. Logo, o retorno precipitado e sem acompanhamento médico aos esportes de alto impacto pode apresentar riscos à saúde.
O estudo mais recente, feito com atletas da Universidade de Ohio, publicado no "Journal of the American Medica Association" (JAMA Cardiology), na semana passada, apontou evidências de miocardite em 15% dos 26 investigados que tiveram Covid-19. E até 30% de danos celulares e inchaço no coração que não puderam ser relacionados diretamente à doença.
As sequelas foram avaliadas após exames de ressonância magnética e sugere o uso da tecnologia para identificar a doença. O retorno às competições universitárias, como a Big Ten Conference, foram canceladas em parte pela preocupação com os atletas que tiveram Covid-19.
" Precisamos de mais e mais estudos clínicos para entender melhor a história natural da doença. Não é viável fazer ressonância magnética em todo mundo, que é o padrão ouro para identificar miocardite. Mas o atleta que tem um volume de atividade alto, profissional ou não, merece uma investigação detalhada e minuciosa " explica o cardiologista Fabricio Braga, diretor médico da Laboratório de Performance Humana da Casa de Saúde São José. " Um exame de sangue, que veja os marcadores de miocardite logo no início da infecção e outro ao fim, pode ser o suficiente.
Protocolos do futebol
Diante dos novos dados, nos protocolos de segurança sanitária dos esportes profissionais deveriam constar não apenas a preocupação com a transmissão do vírus " com o isolamento imediato dos infectados ", mas também em estabelecer os cuidados com cada atleta recuperado, de acordo com o tipo de intensidade de cada atividade.
No futebol, um dos primeiros esportes a retomar as atividades em todo o mundo, há dezenas de casos de jogadores infectados antes e durante os campeonatos " jogos do Brasileiro tiveram de ser adiados por causa de casos, como em Goiás x São Paulo, logo na retomada. O protocolo da CBF, entretanto, exige apenas o isolamento de 10 dias. Se o atleta, neste período não apresentar sintomas, pode retornar mesmo com um teste PCR positivo.
Presidente da Comissão de Médicos da CBF, o neurocirurgião Jorge Pagura afirma que a entidade segue o protocolo do Centro de Doenças Contagiosas dos Estados Unidos, que afirma haver um baixo risco de transmissão após 10 dias desde o início da infecção.
Em relação às possíveis sequelas, a CBF realizou um seminário antes do Brasileiro com os médicos dos clubes. Nele, orientou e recomendou que os atletas sejam monitorados para possíveis complicações pulmonares e cardíacas.
" Abordamos isso com os departamentos médicos e esclarecemos as dúvidas. Mas não é viável ser uma exigência da CBF. A avaliação do retorno do atleta é de competência do departamento médico do clube. São avaliações muito individuais que cabem aos médicos que acompanham os jogadores " afirmou.
Apesar dos poucos estudos robustos, os cardiologistas concordam que já há evidências suficientes para algumas medidas de prevenção em atletas. Clubes como Flamengo e Fluminense têm feito acompanhamento cardiológico em seus atletas. O rubro-negro adota, em alguns casos, o afastamento acima dos 10 dias previsto pela CBF.
Descanso maior
Em outra publicação recente, pesquisadores alemães descobriram que 60% dos 100 pacientes com Covid-19 examinados desenvolveram miocardites, independentemente das condições preexistentes. Apesar de não ser motivo para pânico, os especialistas em coração concordam que o afastamento dos atletas com Covid-19 deveria ser de, no mínimo, 14 dias antes do retorno às atividades.
" É fato que de 10% a 30% de quem tem Covid-19 pode desenvolver alguma injúria no coração. Praticar futebol ou algum esporte antes das duas semanas é um risco que se assume, pois não sabemos ainda o impacto " diz Fernando Bassan, membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
" Não é o caso de fazer terrorismo e dizer para todos que não devem competir, mas não existe risco zero em nada. E os cuidados vão ser de acordo com o valor do atleta, com as condições dos clubes. O Neymar, por exemplo, fará todos os testes possíveis para não correr riscos, mas seja quem for é bom se aconselhar com um médico antes " avalia o cardiologista Claudio Araújo Gil." Pela medicina, nem estaria tendo competição. Mas são profissionais e há formas de minimizar os riscos.