Viernes, 22 de Enero de 2021

Caso ford mostra risco de brasil ficar para trás

BrasilO Globo, Brasil 14 de enero de 2021

A nova cara da Ford no Brasil será a de uma empresa que deixa de fabricar carros de R$ 50 mil, ...

A nova cara da Ford no Brasil será a de uma empresa que deixa de fabricar carros de R$ 50 mil, considerados de entrada, como Ka ou Fiesta, para se tornar uma importadora de veículos premium, de R$ 200 mil. Globalmente, a montadora, que segunda-feira anunciou sua saída do Brasil, deve concentrar boa parte de seus investimentos no desenvolvimento de carros elétricos e autônomos, tendência já adotada por outras companhias. Para especialistas, essa será a grande mudança da indústria automobilística nesta década.
" Países como a Noruega já querem proibir a venda de motores a combustão a partir de 2025. A indústria automobilística toda está em processo de mudança, em busca de sustentabilidade " diz Paulo Vicente, professor da área de Estratégia e Gestão Pública da Fundação Dom Cabral.
No Reino Unido, a venda de carros a gasolina, diesel ou gás será suspensa em 2030. No Japão, veículos a gasolina deixarão de ser comercializados em 2035. Holanda, França e outros países da União Europeia (UE) vão no mesmo caminho.
Todas as montadoras estão recompondo seus portfólios, e a Ford vai nessa direção, diz Marcus Ayres, sócio diretor da consultoria Roland Berger e responsável pelo setor automotivo. A estratégia é deixar de fabricar veículos pequenos para produzir SUVs, inclusive elétricos, um segmento que dá boa margem de lucro.
" Um consumidor que compra um carro de entrada no mercado não quer gastar mais de R$ 50 mil. Mas um consumidor que pode pagar R$ 200 mil por um SUV não se importa de gastar R$ 20 mil a mais para ter um carro mais tecnológico. A Ford está focando em segmentos mais rentáveis e terá de investir em plataformas para produzir carros elétricos " diz Ayres.
Subsídio a os fósseis
Seja por pressão da sociedade ou busca pela liderança na transição para os veículos elétricos, vários países vêm anunciando metas para proibir a venda de automóveis a gasolina e diesel. Para se adaptar ao novo cenário global, montadoras buscam estratégias como fusões bilionárias, a exemplo da recém-anunciada Fiat-Peugeot, ou o encolhimento em mercados menos rentáveis, como fez a Ford ao deixar o Brasil.
Na contramão, o país ainda subsidia fontes de energia fósseis " segundo a ONG Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), de R$ 99 bilhões em 2019 " e tem um mercado muito pequeno de veículos elétricos, o que, segundo especialistas, torna o país menos atraente na disputa por investimentos globais na tecnologia. Além da Ford, a Mercedes-Benz encerrou a produção de carros por aqui.
" Há um movimento amplo e difundido em diversos países para diminuir o impacto ambiental. Vários políticos foram eleitos com essa promessa, e agora eles estão agindo nessa direção " diz Regis Nieto, diretor executivo e sócio do Boston Consulting Group (BCG) Brasil.
Restrições como essas pavimentam o caminho para a indústria de carros elétricos. Segundo recente estudo da consultoria e auditoria PwC, China e UE devem liderar a transição para essa tecnologia.
Entre 2020 e 2035, a parcela dos carros com motor de combustão na UE deve cair de 93% para 17%, considerando a venda de automóveis novos. Estão nesse grupo os híbridos, cuja bateria é abastecida por combustíveis tradicionais, como gasolina, diesel e etanol. Já a fatia de veículos elétricos deve saltar de 4% para 67%.
Na China, a participação dos carros movidos a combustíveis fósseis deve cair de 95% para 32% até 2035. Já os elétricos, que são subsidiados, passarão de 4% para 55%, estima a PwC. O estudo não tem projeções para o Brasil.
Hoje, dessa família só é produzido aqui o Toyota Corolla, que é híbrido e foi lançado em setembro de 2019. Com ele, a categoria de carros elétricos e híbridos ficou com apenas 1% das vendas de veículos leves no país em 2020, segundo a Anfavea, que reúne as montadoras.
" A renda do brasileiro é baixa, somos um país continental e, por isso, há mais dificuldade de adaptar a infraestrutura para os veículos elétricos. Há ainda gargalos na distribuição de energia e já temos o etanol, que é uma fonte renovável " Ricardo Pierozzi, sócio da PwC, que considera questão de tempo a substituição dos carros a gasolina e diesel pelos elétricos.
O Ministério de Minas e Energia diz que "não há estudos em curso para aumentar ou reduzir impostos e subsídios de gasolina e diesel", nem política para banir carros que usem combustíveis fósseis.