Unimed ferj: médicos podem virar prestadores de serviço
Com médicos cooperados relatando atrasos nos pagamentos, a Unimed Ferj propôs na última ...
Com médicos cooperados relatando atrasos nos pagamentos, a Unimed Ferj propôs na última terça-feira que os profissionais ligados à Unimed-Rio se credenciem como prestadores de serviço da Ferj, que há um ano herdou a carteira da ex-operadora. A medida pode resolver problemas relatados pelos usuários, que veem a rede credenciada diminuir com médicos recusando atendimento pela falta de pagamento.
No entanto, médicos continuam preocupados, apontam falta de transparência nos dados financeiros da cooperativa e temem ter que assumir dívidas na casa dos milhares de reais.
Desde a migração, em 2024, a carteira de usuários passou a ser administrada pela Ferj, mas os médicos cooperados são vinculados à Unimed-Rio, que paga os honorários dos profissionais a partir dos repasses da primeira. Há meses, porém, os médicos enfrentam atrasos nos pagamentos. Como mostrou O GLOBO, os repasses aos cooperados são feitos entre 30 e 45 dias após o fechamento do mês. Mas desde janeiro o cronograma é reiteradamente descumprido.
Nesse cenário, a Ferj propôs construir uma rede credenciada própria, burlando a Unimed-Rio. Em um e-mail enviado pela diretoria executiva da operadora aos médicos cooperados, a que O GLOBO teve acesso, a Ferj convida os profissionais a se credenciarem como prestadores.
VALORES EXCEDENTES
Sem detalhar valores ou apresentar comprovantes, a operadora destaca que já havia repassado anteriormente recursos excedentes à prestadora, dando a entender que o atraso nos pagamentos aos médicos é de responsabilidade da Unimed-Rio.
O comunicado argumenta que a operadora tem encontrado "resistência sistemática" no diálogo com a Unimed-Rio, e que teria proposto "antecipação de boa-fé do montante alegadamente devido, independentemente de qualquer apuração de saldo, para que os médicos possam receber de imediato".
O texto afirma que a Unimed-Rio não se manifestou sobre a proposta. Por isso, a Ferj apresentou aos médicos cooperados a possibilidade de credenciamento, oferecendo "relação direta e transparente, pagamentos pontuais e regulares, fluxo administrativo simplificado e respeito mútuo aos princípios cooperativistas".
Em resposta, a Unimed-Rio enviou um comunicado orientando que os cooperados devem desconsiderar qualquer mensagem ou solicitação cujo remetente não seja a cooperativa.
A Unimed-Rio foi procurada, mas não respondeu. Já a Ferj afirmou que tomou a iniciativa "visando assegurar a continuidade do atendimento aos mais de 400 mil beneficiários".
"A Unimed Ferj informa que a medida é legítima e não configura qualquer irregularidade. O credenciamento médico se fez necessário para a garantia do atendimento aos beneficiários nas cidades do Rio de Janeiro e Duque de Caxias", diz a nota.
O GLOBO também buscou a Unimed do Brasil, gestora da marca Unimed, para entender se a proposta da Ferj aos médicos cooperados fere o estatuto do Sistema Unimed. A entidade informou que "monitora e presta apoio operacional" às cooperativas, "com o propósito de assegurar o atendimento aos beneficiários".
MÉDICOS CAUTELOSOS
A iniciativa da direção da Ferj foi recebida com cautela por parte dos médicos, temerosos de que o credenciamento como prestador crie problemas, principalmente em relação à situação financeira da Unimed-Rio.
Há meses os profissionais reclamam de falta de transparência nos dados econômico-financeiros da cooperativa. Sem acesso aos números, eles dizem desconhecer o tamanho da dívida da operadora e temem prejuízos.
" Está uma confusão terrível. Não sei qual vai ser a solução. Estamos todos com muita desconfiança e dúvidas. Como vão ficar os atrasados? Ninguém fala. E a dívida também é uma questão, a gente não sabe o tamanho, e nem o que pode acontecer " reclama a médica Nilcéa Neder Cardoso, da chapa de oposição nas últimas eleições da cooperativa Unimed-Rio.
Na avaliação de advogados, credenciar-se à Ferj pode não resolver o que ficou para trás.
" Pela lei, o cooperado pode pedir pra sair, mas vai ficar responsável pela dívida, até o limite do capital que ele integralizou na entrada na cooperativa. Se esse cooperado entender que a dívida foi gerada por má gestão, ele pode questionar ter que arcar com isso, mas se torna uma briga na Justiça " observa o advogado Rodrigo Tostes, associado sênior do Pinheiro Neto Advogados.