Domingo, 25 de Enero de 2026

Uma brasileira no controle da maior aeronave do mundo

BrasilO Globo, Brasil 25 de enero de 2026

Quando Karina Buchalla Lutkus entra na cabine do Airbus A380, ela não está apenas ...

Quando Karina Buchalla Lutkus entra na cabine do Airbus A380, ela não está apenas assumindo o controle do maior avião comercial do mundo. Aos 46 anos, a paulista de São José do Rio Preto virou inspiração para muitas mulheres que sonham em pilotar, após uma trajetória que desafiou estatísticas e preconceitos. Em 27 de outubro passado, Karina se tornou a primeira brasileira a alcançar o posto de comandante do "gigante dos céus", na Emirates.
Filha de um comandante da extinta Varig, irmã de um piloto e casada com outro, Karina cresceu respirando aviação, mas descobriu cedo que o sobrenome e a paixão não a blindariam contra o machismo de um setor no qual, ainda hoje, as mulheres ocupam apenas 5,2% das cabines de comando nas principais aéreas do mundo, segundo a International Society of Women Airline Pilots.
"A reação é engraçada. No fim do voo, quando me despeço dos passageiros na porta da aeronave, é comum pedirem fotos comigo. As passageiras me cumprimentam e se dizem orgulhosas. Os homens também me parabenizam, mas alguns completam com comentários, como: ‘Comecei o voo com medo, mas adorei. Parabéns. Voaria de novo’", contou Karina ao GLOBO, em 2010, quando foi destaque de uma reportagem sobre a presença feminina na aviação. Hoje, a comandante está mais à vontade no posto:
" A maioria das pessoas não me levava a sério, e algumas até sugeriram que eu desistisse, acreditando que esse não era um caminho para mulheres. Mas, em vez de me desanimarem, essas experiências fortaleceram minha determinação. Elas me ensinaram resiliência, me ajudaram a provar minha capacidade e, no fim das contas, me deixaram mais comprometida em quebrar barreiras e mostrar que as mulheres podem prosperar nessa profissão.
O caminho de Karina reflete um pouco da montanha-russa da aviação global. No início dos anos 2000, ela enfrentou três anos de trabalho sem remuneração só para acumular horas de voo em aviões de pequeno porte. Em 2001, quando finalmente parecia ter alcançado o sonho de entrar na Varig, ela estava no simulador de voo no exato momento em que os ataques de 11 de setembro paralisavam o mundo, cancelando seu processo seletivo.
O período que se seguiu aos atentados em Nova York marcou o que especialistas chamam de "década perdida" para os profissionais do ar, transformando o sonho de pilotar em um cenário de incertezas e retrocessos.
No Brasil, a virada para Karina veio em 2002, quando entrou na TAM como copilota de Airbus A320. Naquela época, ela era uma das poucas exceções, já que apenas sete mulheres pilotavam pela companhia. Hoje, o cenário ensaia mudanças, com empresas como Latam, Gol e Azul adotando políticas de incentivo e suporte às profissionais, como a "Escala Mãe", que permite que pilotas com filhos pequenos retornem para casa diariamente.
" Na essência, hoje sou a mesma que entrou na TAM, mas muito mais evoluída em todos os sentidos: muito mais conhecimento técnico, habilidades interpessoais, experiência de voo e, especialmente, experiência de vida, como esposa, mãe, enfim, muito mais completa " diz Karina.
Voos emocionantes
A pilota passou pelo Fokker 100, pelo A320 e, em menos de um ano, migrou para o A330, em rotas internacionais para a Europa e os Estados Unidos. Em 2010, aos 30 anos, foi promovida a comandante de aviões da família A320. Ao longo desse período, acumulou voos que misturaram técnica e aprendizado com comandantes experientes e surpresas na vida pessoal.
" Tenho vários voos marcantes, mas posso citar aquele em que conheci meu marido, que era passageiro vindo de Londres; o voo em que meu pai estava a bordo logo após minha promoção a comandante; os voos do Dia Internacional da Mulher, que realizei por vários anos com tripulação 100% feminina; voos em que levei meu filho a bordo ainda bebê; e meu último voo na TAM, onde pude dividir a cabine de comando com meu marido " relembra Karina.
Mesmo com a carreira consolidada no Brasil, o sonho de voar em grandes aeronaves em uma companhia global permaneceu. A Emirates era um objetivo antigo, adiado por razões familiares. Quando decidiu tentar, Karina se preparou por meses para um processo seletivo rigoroso, com provas teóricas, simulador, entrevistas e exames médicos em Dubai. A primeira vez na cabine do A380 ficou gravada na memória.
" Fiquei sem palavras, completamente eufórica " conta. " Quando o voo acabou e o examinador apertou minha mão e disse "Parabéns, muito bem feito!", foi como se um filme de toda a minha carreira passasse pela minha cabeça. Um misto de vitória, realização e felicidade.
Mesmo sem redes sociais, Karina sentiu o peso da conquista com a repercussão provocada pela publicação da Associação das Mulheres Aviadoras do Brasil, entidade sem fins lucrativos que compartilhou o feito nas redes e destacou que o comando de Karina no A380 "simboliza todas as mulheres que sonham em voar cada vez mais alto". A fabricante europeia Airbus também se manifestou em uma publicação no Instagram: "O maior avião de passageiros do mundo está em ótimas mãos. Parabéns à comandante Karina pela conquista e por inspirar novas gerações".
" Todo o meu sucesso na conquista desse sonho só foi possível, além da minha paixão e determinação, graças ao suporte da minha família: do meu pai e da minha mãe no começo da carreira e, hoje, principalmente, ao apoio incondicional do meu marido. Ele aceitou interromper sua carreira de piloto no Brasil, aposentando-se aos 59 anos, para poder me acompanhar em Dubai e cuidar dos nossos filhos enquanto eu avanço na minha carreira.
Os dados oficiais da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) reforçam o tamanho do desafio enfrentado por mulheres que querem pilotar. Embora o setor registre um crescimento gradual na emissão de licenças para mulheres nos últimos dez anos, o abismo em relação aos homens ainda é profundo. Em 2015, elas detinham apenas 10% das licenças totais. Já em 2025, o cenário piorou: 255 novas habilitações femininas contra 3.568 masculinas, pouco mais de 7%.
O contraste é ainda mais nítido na categoria de Piloto de Linha Aérea (PLA), necessária para comandar grandes jatos. De acordo com os registros da agência, enquanto 692 homens obtiveram a licença PLA em 2025, apenas 19 mulheres alcançaram o mesmo posto no ano passado.
De Kalina a Karina
A conquista de Karina no Airbus A380 não é um fato isolado, mas a consequência de um caminho aberto com muita persistência décadas antes. Se hoje ela comanda o gigante da Airbus, parte da rota foi feita por outra brasileira em Dubai: Kalina Aguiar.
As semelhanças entre as duas vão além do som dos nomes e da farda da Emirates: Kalina ingressou na companhia em 2006, aos 41 anos, e quatro anos depois fez história ao se tornar a primeira mulher a assumir o posto de comandante na empresa. Para ela, o sucesso de brasileiras no exterior é a prova de que a competência supera qualquer barreira geográfica, cultural ou de gênero, embora o início tenha sido solitário.
A trajetória de Kalina começou sem referências e ela precisou trilhar um caminho indireto, primeiramente atuando em solo e depois como comissária na Varig para financiar suas próprias horas de voo. Em 1991, tornou-se a primeira pilota da companhia, mas a estrutura ainda não estava pronta para recebê-la.
" Na Varig, quando comecei o curso, o uniforme era masculino, eles me deram um uniforme de homem. Não tinha preparação nenhuma. Foi tudo sendo feito com o nosso trabalhinho junto à diretoria, mostrando que a mulher faz a mesma função que o homem " diz Kalina.
Essa vivência de improvisos e a falta de políticas para mulheres na cabine motivaram Kalina a unir a categoria. O que começou como um grupo de apoio informal para discutir questões como uniformes e licença-maternidade, profissionalizou-se em 2018 com a fundação da Associação das Mulheres Aviadoras do Brasil, hoje com 430 associadas.
" A gente faz um trabalho voltado às mulheres para que elas tenham o norteamento que eu não tive. Vamos às escolas e incentivamos cursos de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, onde a aviação está inserida, porque existe uma lacuna nos sonhos das meninas. Essas profissões não são oferecidas a elas " finaliza Kalina.
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