Lunes, 26 de Enero de 2026

Lixo espacial transforma órbita da terra em campo minado geopolítico

BrasilO Globo, Brasil 26 de enero de 2026

Em 10 de fevereiro de 2009, a teoria do caos orbital deixou os papéis acadêmicos para se ...

Em 10 de fevereiro de 2009, a teoria do caos orbital deixou os papéis acadêmicos para se tornar realidade a 789 quilômetros acima da Sibéria. Em uma fração de segundo, o satélite americano Iridium 33, vital para as comunicações, chocou-se a 42 mil km/h com o russo Cosmos 2251, que estava desativado. O evento iniciou uma nova era de tensão: 16 anos depois, o espaço é um engarrafamento onde o lixo se tornou um risco geopolítico tão grave quanto mísseis.
Não houve explosão de fogo como nos filmes, mas uma dispersão silenciosa e letal: mais de 2 mil fragmentos grandes e milhares de estilhaços foram lançados em todas as direções. Hoje, a disputa entre as superpotências espaciais Estados Unidos, China e Rússia não se resume a quem chega primeiro a Lua ou Marte, mas também por quem consegue manter suas operações seguras em meio a um campo minado orbital.
Reação em cadeia
O maior temor dos especialistas tem nome: Síndrome de Kessler. Proposta pelo cientista da Nasa Donald Kessler em 1978, a teoria descreve um cenário em que a densidade de objetos em órbita baixa é tão alta que uma única colisão gera fragmentos que, por sua vez, atingem outros objetos, criando uma reação em cadeia incontrolável. Antonio Bertachini de Almeida Prado, especialista em dinâmica orbital do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), explica que já estamos em uma "margem de risco" perigosa.
" Se você levar em conta que um objeto pode colidir com o outro e dois podem se transformar em milhares, esses milhares em outros milhares, você tem o que a gente chama de crescimento exponencial. A aceleração da poluição passa a ser muito grande. Você lança dez satélites, mas se dois destes colidirem, você pode ter centenas ou milhares de pedaços voando no espaço.
Nesse cenário, certas órbitas se tornariam inutilizáveis por gerações. O "bloqueio" dessas "estradas espaciais" afetaria desde o GPS do seu carro até transações bancárias internacionais e previsões meteorológicas. Mas, na arena geopolítica, quem perde mais? Enquanto países sem programa espacial robusto sofreriam com a queda de serviços globais, as potências militares ficariam "cegas".
" Sem dúvida nenhuma, quem pagará o maior preço serão as potências espaciais, pois elas utilizam o espaço muito mais do que países como o Brasil. Os Estados Unidos, por exemplo, dependem dos meios espaciais para realizar o desdobramento de suas Forças Armadas, o que não seria mais possível no cenário descrito por Kessler " afirma Luís Eduardo Vergueiro Loures da Costa, chefe do Núcleo da Divisão de Engenharia Aeroespacial do ITA.
Embora o Brasil não integre o seleto grupo de potências espaciais, sua dependência da infraestrutura orbital é profunda e estratégica. Satélites são essenciais para o monitoramento do desmatamento e das queimadas na Amazônia, para a previsão de eventos climáticos extremos, para a agricultura de precisão e para sistemas de navegação e sincronização que apoiam desde o transporte aéreo até operações de defesa.
Incidentes recentes
A tensão aumentou drasticamente nos últimos anos, após a Rússia conduzir um teste de míssil antissatélite (ASAT) em 2021, destruindo deliberadamente sua própria nave, a Cosmos-1408. O resultado foi uma nuvem de 1,5 milpedaços rastreáveis que colocou em risco até mesmo a Estação Espacial Internacional.
Mas o exemplo mais dramático da fragilidade humana no vácuo ocorreu recentemente com a missão chinesa Shenzhou-20. Três taikonautas ficaram presos na estação espacial Tiangong após um pequeno detrito " possivelmente menor que uma moeda, mas viajando a velocidades hipersônicas " atingir a cápsula de retorno, causando uma rachadura na janela.
O incidente forçou a China a uma missão de resgate de emergência, enviando a cápsula Shenzhou-21 para trazer a tripulação de volta. Para o professor do ITA, esses episódios mostram que o lixo não é uma arma, mas se tornou uma fraqueza compartilhada.
" Existem algumas regras aceitas internacionalmente, como a da necessidade da reentrada dos objetos lançados em, pelo menos, 25 anos. Recentemente, a Nasa lançou uma regra que, em seus projetos, os sistemas espaciais devem reentrar em pelo menos cinco anos. Creio que esta regra deveria ser estendida a todos os países, já que todos podem ser prejudicados pela falta de regras efetivas, não apenas alguns " afirma.
O cenário fica mais complexo com a entrada de atores privados. A SpaceX, de Elon Musk, já lançou milhares de satélites Starlink. Em resposta, a China iniciou a construção da constelação "Qianfan", que prevê outros 13 mil satélites em órbita, em um projeto liderado pela Shanghai Spacecom Satellite Technology.
Atores privados
Embora pareça apenas uma corrida comercial, a lógica de poder permanece a mesma. Os satélites privados acabam servindo aos interesses nacionais, seja provendo internet em zonas de guerra (como a Starlink na Ucrânia) ou garantindo a soberania de dados chineses. O congestionamento das órbitas, portanto, aumenta o risco de atritos diplomáticos caso um satélite privado americano colida com um estatal chinês.
Nesse contexto, gigantes como a SpaceX anunciaram recentemente o rebaixamento da órbita de mais de 4 mil satélites Starlink. A medida é elogiada por Bertachini, embora ele afirme que não resolve o problema e que o espaço continua à mercê de um vácuo jurídico, sem leis globais vinculantes que obriguem a limpeza, aumentando o impasse financeiro e diplomático.
" Não existe uma maneira de punir alguém que não cumpriu (a retirada do satélite de órbita). É uma conta elevada que ninguém quer pagar. A quem cabe a responsabilidade? Eu diria que a quem lançou o satélite. Mas se quem lançou não fizer nada, quem for usar a órbita vai precisar limpá-la. Então, ficamos hoje nesse impasse jurídico " alerta Bertachini.
Segredo militar
Se o diagnóstico do problema é claro, a solução esbarra na desconfiança mútua. Atualmente, existem cerca de 13 mil satélites em órbita, e a falta de uma regulação global unificada transforma o monitoramento em um jogo de segredos.
Luis Fellipe Alves, engenheiro aeroespacial e CEO da startup brasileira Safe on Orbit, explica que a tecnologia para rastrear e evitar colisões existe, mas enfrenta resistência no meio militar.
Essa postura cria "pontos cegos" no monitoramento global. Alves ressalta que, embora existam bases de dados públicas, a precisão é limitada e a interpretação é complexa. Além disso, milhões de fragmentos menores que 10 centímetros, mas capazes de perfurar blindagens como "agulhas hipersônicas", permanecem invisíveis aos sensores atuais.
Frente ao impasse diplomático, o mercado privado começa a preencher o vácuo. A Safe on Orbit, primeira empresa espacial brasileira a receber aporte de capital de risco, é uma das que atua na otimização de manobras para evitar choques. Segundo Alves, a mentalidade das empresas comerciais está mudando e o discurso de "nunca aconteceu comigo" está dando lugar ao cálculo financeiro.
" Muitas empresas já enxergam o serviço de rastreamento de lixo espacial como essencial para a operação dos satélites. O monitoramento constante impede que uma nave de milhões de dólares colida e acabe a missão antes da hora.
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