Lunes, 30 de Marzo de 2026

Sob pretexto religioso e de segurança, aliados de netanyahu defendem expansão territorial

BrasilO Globo, Brasil 30 de marzo de 2026

o sonho do ‘Grande Israel’

o sonho do ‘Grande Israel’
Uma semana antes do início da guerra no Irã, o embaixador americano em Israel, Mike Huckabee, ao ser perguntado se concordava com a expansão do território israelense em direção aos rios Nilo (Egito) e Eufrates (Iraque), com base em um versículo bíblico, disse que "não haveria problema se eles tomassem tudo". Mais do que uma fala criticada por governos da região, Huckabee jogou luz sobre a antiga aspiração do "Grande Israel", que prevê fronteiras mais amplas do que as atuais e que pauta a extrema direita local (e global).
" O conceito do "Grande Israel" muda de significado de acordo com os contextos históricos e políticos. Há uma certa pretensão à expansão territorial que antecede o movimento nacional judaico, o sionismo. É uma ideia que tem a ver com a promessa de Deus a Abraão. Antes, inclusive, da construção da identidade judaica " afirmou ao GLOBO Michel Gherman, professor do Núcleo de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). " Mas esse conceito religioso passa a ganhar cores políticas a partir do surgimento do sionismo, no final do século XIX.
Ao lado da proposta da criação de um Estado judeu onde hoje estão Israel e Palestina (à época controlada pelo Império Otomano), surgiram os potenciais desenhos desse novo país, com base em textos bíblicos.
O Livro de Gênesis diz que as terras destinadas por Deus a Abraão se estendiam do Nilo até o Eufrates, incluindo partes dos atuais Egito, Jordânia, Arábia Saudita, Síria, Irã, Líbano, Iraque, Turquia, Kuwait e os territórios palestinos ocupados. Esse modelo foi citado pelo fundador do sionismo moderno, Theodor Herzl, em seus diários no fim do século XIX. Pelo livro de Deuteronômio, as fronteiras incluem a Palestina histórica, Líbano, Egito, Jordânia e Síria, formato similar ao do livro de Samuel.
" Herzl, na verdade, fez uma proposta de fronteiras que jamais foi consolidada. E esse é o problema do sionismo. Os setores mais progressistas, mais seculares, tiveram pouca relação com os limites territoriais. Quem ocupa esse espaço de limites mais expandidos é a direita sionista, especialmente a direita religiosa " aponta Gherman. " São eles que estarão em diálogo com os grupos que o embaixador americano representa, que acreditam na expansão territorial absoluta e messiânica de Israel.
expansão contínua
Desde sua fundação, em 1948, Israel já expandiu seu território algumas vezes. Na própria independência, após vencer a guerra contra os vizinhos árabes, o país passou dos 56% do território da região inicialmente alocados ao estabelecimento do Estado judeu para 77%. Em 1967, após a Guerra dos Seis Dias, anexou a Península do Sinai, Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental e as Colinas do Golã " apenas o Sinai foi devolvido ao Egito. Mesmo em áreas onde deveria haver autonomia local, como a Cisjordânia, a expansão de assentamentos judeus e a aplicação de leis restritivas reiteram o status da ocupação.
" Após a guerra de 1967, houve um movimento que argumentava que as terras ocupadas representavam uma oportunidade para concretizar a Grande Terra de Israel " explicou ao GLOBO Leonie Fleischmann, professora de Política Internacional da faculdade City’s St.George, ligada à Universidade de Londres. " Hoje, essa promessa impulsiona um movimento expansionista, motivado histórica, religiosa e politicamente pela expansão de Israel para os territórios que acreditam terem sido prometidos por Deus.
A discussão sobre o "Grande Israel" e o expansionismo não é prioritária para a maioria dos israelenses, mas integra a cartilha ideológica da extrema direita, não apenas a israelense.
" Há setores na extrema direita em Israel inspirados por uma perspectiva de expansão que vai além das fronteiras dos Estados nacionais. Eles são menos vocais no governo, mas existem. E podemos encontrar seus ecos fora do sionismo judaico, criando um vínculo com o sionismo cristão " diz Gherman, referindo-se à vertente do cristianismo que defende a expansão do Estado judeu como caminho para o retorno do Messias. " Esses setores têm muito diálogo com a extrema direita internacional, com [o presidente da Argentina, Javier] Milei, com o embaixador dos EUA, com [o presidente dos EUA, Donald] Trump.
Como destaca Fleischmann, a extrema direita usa a pauta da segurança para defender a expansão territorial, ligada ao conceito do "Grande Israel". No ano passado, a foto de um emblema militar com o desenho das fronteiras bíblicas, preso no braço de um soldado em Gaza, foi alvo de controvérsia e explicitou a força do discurso entre soldados.
mapa maximalista
Bezalel Smotrich, ministro das Finanças e um dos mais radicais integrantes do governo do premier Benjamin Netanyahu, defende a anexação de Gaza e da Cisjordânia e, há três anos, exibiu um mapa de Israel que incluía a Jordânia e partes de Arábia Saudita e Síria.
Há uma semana, ele defendeu que Israel estabeleça como nova fronteira o Rio Litani, localizado no sul do Líbano " desde o começo do mês, militares bombardeiam a área sem trégua e forçaram a saída de centenas de milhares de civis. Em setembro de 2024, durante outro conflito no país árabe, um articulista do jornal Jerusalem Post fez a mesma sugestão, em um texto posteriormente apagado.
Se a ocupação de parte do Líbano, como defende Smotrich, é ainda uma hipótese, a anexação dos territórios palestinos parece iminente, especialmente a Cisjordânia. No ano passado, o Parlamento israelense aprovou uma moção para tornar a região parte do Estado israelense. Os planos foram pausados por pressão de Trump, mas avançaram por outras vias. Em fevereiro, o Gabinete liberou a compra de terras por judeus sem autorização, retirou poderes da Autoridade Nacional Palestina e abriu espaço para o registro de propriedades como "propriedade do Estado" de Israel.
" A construção de assentamentos e a violência dos colonos, embora tenham aumentado e agora sejam sancionadas por membros do Parlamento com pastas ministeriais, sempre estiveram presentes " disse Fleischmann, lembrando que mesmo governos de esquerda apoiaram os assentamentos. " Mas as atuais tentativas e o desejo de anexação são impulsionados pela extrema direita, por motivações religiosas. Há também um movimento de assentamentos muito ativo, que historicamente impulsionou a construção de colônias com fundos provenientes de fora de Israel.
divisão interna
Gherman aponta para as divisões na oposição sobre as políticas territoriais. Em fevereiro, Yair Lapid, que postula o posto de Netanyahu nas eleições de outubro, afirmou que "apoia qualquer medida que permita aos judeus uma terra vasta, forte e um refúgio seguro para nós", ecoando a ideia do "Grande Israel". Já Yair Golan, que defende a solução de dois Estados, "tem falado do risco que os colonos representam a Israel e que a expansão representa a Israel", explicou o professor da UFRJ.
Ao contrário de seus aliados, Netanyahu não é tão vocal sobre suas novas fronteiras, o que não significa que seja menos messiânico: em fevereiro do ano passado, anunciou que estava em uma "missão histórica e espiritual" à frente do governo. Para ele, o conceito do "Grande Israel" vai além de territórios. Em seu livro de 1993, "Um lugar entre as nações", o premier defendia a busca por uma hegemonia israelense no Oriente Médio, que blindasse a nação de ameaças (Irã), construísse vantagens econômicas e lhe permitisse ignorar pressões externas, como as ligadas à Palestina.
" Esse é o discurso da direita hegemônica hoje no governo de Israel. A noção de uma hegemonia regional, que ocuparia espaço da expansão territorial. É o grande modelo e o grande sonho de Benjamin Netanyahu " diz Gherman. " Mas esse projeto causa muito desconforto entre os aliados dos EUA, como a Arábia Saudita e as monarquias do Golfo. Israel também está há dois anos e meio em guerra, e a realidade é que o Hamas continua mandando em Gaza, e o Irã está longe de ser derrotado. Tudo que Netanyahu prometeu sobre a consolidação da hegemonia de Israel hoje não se vê na prática.
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