‘O brasileiro é o desenho do cliente perfeito do club med’
Entrevista
Entrevista
O Club Med vai fincar sua bandeira no Sul e no Nordeste, ampliando de três para cinco os villages do grupo francês " que hoje pertence ao fundo Fosun, da China " no Brasil até a virada de 2028 para 2029, quando está prevista a inauguração de uma unidade no litoral do Ceará, perto de Fortaleza. Antes, em julho do ano que vem, o quarto resort no país abre as portas em Gramado (RS). Os investimentos somam quase R$ 1 bilhão.
Não é à toa. São marcos para um país que figura como o principal mercado em clientes " vistos como "perfeitos" para a rede " e o de maior faturamento do Club Med depois da França, explica Stéphane Maquaire, CEO global da companhia desde julho de 2025, em entrevista ao GLOBO ao lado de Janyck Daudet, CEO para a América do Sul.
" Fortaleza vai ser o primeiro village de kitesurf, um novo filão que vamos poder desenvolver " conta Maquaire.
O resort cearense ainda poderá atrair estrangeiros ao Brasil, na visão dos executivos. Já o do Sul terá a classificação máxima de sofisticação da rede francesa, ainda inédita na América do Sul. Entre as metas da rede estão chegar a sete ou oito unidades nessa região do planeta, prioritariamente no Brasil, e saltar de 60 para uma centena de villages em todo o mundo ao longo dos próximos três anos, diz Daudet, que celebra a chegada de Maquaire, após quatro anos à frente do Carrefour no Brasil:
" Ele conhece o país e o seu potencial.
O Club Med planeja uma grande expansão?
Maquaire: Temos 60 villages no mundo e vários projetos andando, como o de Gramado (já em construção). Vamos abrir na África do Sul e em Bornéu, na Malásia, neste ano. Queremos acelerar muito. É uma jornada de transformação e sofisticação das nossas atividades. E o Brasil faz parte dessa jornada. Temos três villages no país, Gramado será o quarto, abre em julho de 2027, e outro projeto em Fortaleza, que abre entre o fim de 2028 e o início de 2029. Queremos ter até sete, oito villages na América do Sul, quase todos no Brasil.
Então chegarão a outros países na região?
Maquaire: Nós temos um pilar muito forte no Brasil. É a nossa prioridade. Porém, se tivermos um projeto em outros países da América do Sul, why not (por que não)?
Daudet: O Brasil é o segundo mercado do mundo para o Club Med. Além da costa, temos cidades como Gramado. E o Stéphane conhece muito bem o Brasil. Temos um potencial enorme, segundo país em faturamento no mundo. E temos, o mais importante, uma marca forte.
O que significa o Brasil para o Club Med?
Maquaire: Os brasileiros são o nosso segundo mercado (em clientes) atrás da França, país de nascimento do Club Med. Hoje, temos França, Brasil, Estados Unidos, Canadá e Bélgica. É difícil saber se em dez anos vamos ter Brasil ou EUA como número dois, porque a CEO América do Norte, Carolyne (Doyon), e o Janyck se dedicam ombro a ombro.
Daudet: O Brasil é o segundo país porque vende (a clientes brasileiros) para os resorts brasileiros, vende para o Caribe e vende muito para o esqui. Temos 135 mil clientes brasileiros. Mais ou menos 100 mil vão para villages do Club Med no Brasil. E cerca de 35 mil vão para o resto do mundo, principalmente para esquiar. No total da América do Sul são 200 mil clientes. A França tem 600 mil. Um produto é feito para um cliente. E o nosso (produto) é uma experiência. Se eu tivesse que fazer o desenho do cliente perfeito do Club Med, ele seria o brasileiro. Porque é caloroso, gentil, braços abertos, esportista, gosta de (viajar em) família. Nós, brasileiros (Daudet vive no Brasil há 30 anos), somos assim.
Em 2025, o Brasil bateu recorde de turistas internacionais. A meta é atrair estrangeiros para os ‘villages’ daqui?
Maquaire: Exatamente. Nosso projeto ficará a 1 hora e 15 minutos de Fortaleza (na região entre Uruaú e Fortim) e será o mais perto da Europa. Tem voo direto entre Paris e Fortaleza. Será uma oportunidade de ter muito mais clientes do exterior. Hoje somos muito fortes nos nossos villages do Brasil com os brasileiros, argentinos, chilenos. E também com o B2B (vendas para empresas), falta-nos um pouco trazer o cliente do exterior. E Fortaleza vai responder a essa oportunidade.
Daudet: Fortaleza vai ser o quinto village (no Brasil). Temos Rio das Pedras (Mangaratiba, RJ) e Trancoso (BA), que foram totalmente reformados; Lake Paradise (Mogi das Cruzes, SP) acaba de reformar agora; Gramado, que vai ser um Exclusive Collection (5 tridentes, a mais alta classificação da rede), e Fortaleza, que traz atratividade com a proximidade da Europa. Há 75 anos, o Club Med lançou o primeiro resort de esqui. Nós vamos lançar aqui o primeiro de kitesurf. O kite está crescendo muito. E é o esqui no mar. O village (do Ceará) terá 310 quartos, sendo 35 ou 30 da Exclusive Collection, como temos em Rio das Pedras.
Maquaire: O kitesurf é uma boa oportunidade para acrescentarmos algo tipo o esqui, como fizemos com a neve. Temos outros projetos ao redor do mundo com essa possibilidade. E também o surf, com um village que vamos abrir na África do Sul, com a primeira escola de surf do Club Med. E a 3 horas (de distância) você poderá fazer uma extensão, a um segundo village, para fazer um safári. Esse safári será aberto para famílias com crianças a partir de 4 anos. Normalmente, pedem 8 até 10 anos. Então, o Club Med se reinventa, com o village de surf, na África do Sul, e o de kitesurf, em Fortaleza.
Qual é o investimento no Brasil?
Daudet: Para Fortaleza são aproximadamente R$ 500 milhões. Para Gramado, cerca de R$ 450 milhões, com 250 quartos e 20 vilas. Cada um deve gerar 400 empregos diretos e 200 indiretos. Será o primeiro village inteiramente Exclusive Collection na América do Sul. Nosso parceiro, o DC Set Group, comprou (a área) em uma montanha com 210 hectares, a quatro ou cinco quilômetros de Gramado. Tem um visual com vista eterna. Haverá uma parte para famílias e uma para adultos, que vão se cruzar. A gastronomia será forte, o bem-estar também, com spa. E há o ecossistema ao redor do village, nosso parceiro terá pista de esqui artificial externa, aberta ao público, mas o Club Med terá alguma prioridade, jardim botânico, show de som e luz, teleférico até o Centro de Gramado. E um condomínio (residencial), que é o que viabiliza o investimento, num primeiro momento de R$ 1 bilhão.
Há um movimento claro de tornar os ‘villages’ cada vez mais sofisticados?
Maquaire: Estamos seguindo o que os nossos clientes estão pedindo: novos serviços, novos esportes e, claramente, um village como o Rio das Pedras precisa de vez em quando de uma reforma. Não é meramente tornar mais sofisticado, mas manter o nível da nossa parte premium.
O aeroporto de Gramado vai sair?
Daudet: Eduardo Leite (governador do Rio Grande do Sul) falou que a licitação está sendo feita. E (o projeto) será acelerado por duas razões. A primeira é que o aeroporto de Porto Alegre ficou fechado meses (devido às enchentes de 2024), e deverá ser uma alternativa no lugar mais turístico, se não ele fracassa. E o Club Med é um incentivo, mas, de qualquer maneira, esse aeroporto seria feito. E tê-lo a 20 quilômetros do resort é uma bênção, acessibilidade é muito importante. A gente tem que fazer resorts que fiquem a uma hora, duas horas, no máximo (de uma capital). O Club Med vai trazer atratividade para o cliente internacional. Eu trabalho com toda a América do Sul, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile. Eles vão para Gramado no lugar de, nada contra, Disney. É um case de sucesso, icônico no Brasil.
A meta de mais 40 novos ‘villages’ impressiona, mas houve ajustes na rede, resorts fecharam.
Daudet: No 11 de setembro (ataque terrorista aos EUA em 2001), o Club Med passou muito mal. Depois, veio a pandemia. E decidimos nos reposicionar. Hoje em dia, todos os villages estão reformados, são mais sofisticados. E temos o poder comercial, globalmente, em marketing, e legitimidade para acelerar. O Stéphane chegou no momento certo, com esse perfil internacional, para fazer essa aceleração, dar mais autonomia e força ao país. Para nós, é uma oportunidade. Não só porque ele fala português, mas porque conhece o país e o potencial. Não é preciso explicar. Isso ajuda num país que é muito importante, o Brasil está passando por um momento maravilhoso.
O cenário geopolítico traz desafios?
Maquaire: Impacta. A situação da guerra no Irã nos pegou. Primeiro, porque teve o cliente da região que não conseguia voltar (para casa). E gente que não pôde ir até os villages aonde havia reservas. Demos um passo atrás em termos de atividades. O problema é que muitos brasileiros e clientes do Club Med, quando querem ir até a Ásia, têm que passar por Dubai. É como um nó bem forte que existe hoje. Tem impacto para todo o setor, todos os países do mundo têm essa dificuldade. A boa notícia é que cuidamos dos clientes até a volta para casa. Organizamos voos, alguns a nossas custas.
O Brasil, fora de zonas de conflitos, pode ser beneficiado?
Daudet: Claro. O Brasil ficou durante 20 anos com 5 milhões, 6 milhões de turistas (internacionais). Não dá para comparar com a França, que tem 30 milhões. Mas, imagina, se duplica o número, (o efeito) para o país, para o povo, para o taxista, para o hotel, para o comerciante? A indústria do turismo é poderosa. E o Brasil tem um potencial enorme. Somos uma marca global, presente em vários países. Se acontecer alguma coisa, como guerra, é forte, é triste, mas, como somos globais, podemos compensar. Encontrei um casal americano, ontem (no dia 18), em Rio das Pedras. Eles iriam para Seychelles, mas cancelaram e vieram para cá.
Como foi o resultado do Brasil em 2025?
Maquaire: O ano de 2025 foi muito bom. Os resultados saem neste mês. Podemos dizer que foi de um novo recorde para o Brasil.
Os brasileiros seguem garantindo ocupação massiva em janeiro na Europa?
Maquaire: Sim. Fiz questão de passar uma semana, em janeiro, num resort nos Alpes, no de La Rosière, especificamente para ver os brasileiros. Nessa semana, de 800 clientes no resort, 650 eram do Brasil. Só se falava português. Tudo é feito para acompanhar os clientes. Se há muitos brasileiros, o cardápio inclui feijão. Monitores de esqui aprenderam português para falar com crianças e adultos brasileiros.
Stéphane Maquaire e Janyck Daudet / CEO global e CEO América do Sul do Club Med