Lunes, 27 de Abril de 2026

‘Big techs têm hoje um poder desmedido’

BrasilO Globo, Brasil 27 de abril de 2026

Entrevista

Entrevista
Sete de janeiro de 2025 foi decisivo na carreira de Daniela da Silva, então chefe de Políticas Públicas do WhatsApp no Brasil. Naquele dia, Mark Zuckerberg, CEO da Meta, publicou o vídeo que anunciava o fim dos programas de moderação e checagem de conteúdo nas plataformas da companhia (dona do aplicativo de mensagens e também de Facebook, Instagram e Threads). Daniela expressou sua discordância ao antigo chefe e decidiu sair.
Pouco mais de um ano depois, a executiva quer que outros funcionários de big techs no Brasil tenham um canal para expressar descontentamentos com práticas questionáveis, arbitrariedades e até ilegalidades nos bastidores de negócios que acumulam enorme poder sobre a sociedade. Uniu-se à jornalista Tatiana Dias e ao advogado Luã Cruz para criar a ONG Ctrl+Z.
A entidade lança amanhã uma plataforma de denúncias anônimas para que usuários e, principalmente, funcionários e terceirizados das companhias por trás de redes sociais possam expor com segurança desvios éticos que comprometam o interesse público. A expectativa dela é que desse projeto possa surgir uma versão nacional de Frances Haugen, a ex-executiva da Meta que se tornou uma delatora junto a autoridades americanas ao tornar público os Facebook Papers, documentos internos que mostravam problemas graves e dilemas éticos na operação da empresa de Zuckerberg. Parte dessas denúncias foram usadas na condenação recente da Meta nos EUA por atividade prejudicial a crianças.
Em entrevista ao GLOBO, Daniela explica que a plataforma está em desenvolvimento junto com o Global Leaks, que tem outras experiências desse tipo no mundo, a partir de um provedor fora do país para maximizar a segurança. As denúncias serão avaliadas com critério jornalístico, não serão expostas sem um trabalho investigativo. A ONG conta com financiamento da Luminate, uma organização internacional que busca melhorar a segurança dos ambientes digitais.
Quais os objetivos da Ctrl+Z?
Enfrentar o modelo de operação das big techs a partir do Brasil, que é uma cultura de resistência, de abertura, de liberdade. Queremos beber desse passado histórico do Brasil na cultura digital para fazer o enfrentamento ao poder das empresas de tecnologia, que está totalmente desmedido em relação a Estados e sociedade nesse momento. Nosso objetivo a curto prazo é oferecer esse anteparo de resistência, de forma que seja mais custoso para essas empresas tomarem decisões tão ruins para as pessoas.
Vão oferecer proteção jurídica aos denunciantes?
Não. Vamos dar uma ferramenta para proteger o anonimato. É uma ferramenta que não vai trackear seus dados, você pode fazer uma navegação anonimizada. A proteção vem pelo anonimato da fonte.
Por que no Brasil praticamente não há denunciantes de big techs como em outros países?
Há algumas camadas. Uma cultural importante, que é alimentada pela falta de arcabouço jurídico de proteção. O denunciante muitas vezes é visto como vira-casaca, traíra. A gente tem um contexto cultural complexo e essas empresas se apropriam disso com facilidade. E existem medidas estruturais. Todos os contratos de big techs têm termos de confidencialidade, que são desenhados para proteger segredos comerciais, escritos de maneira tão ampla que as pessoas têm dúvidas do que podem compartilhar. Tenho ouvido relatos, depois da minha saída da Meta, de uma vigilância crescente. Isso tem um efeito arrefecedor, o que não corresponde ao fato de que as pessoas não estejam preocupadas. Vi muito dissenso e muita preocupação dentro da empresa. Há resistência de funcionários acontecendo em outros lugares do mundo e não vejo por que isso não poderia acontecer também no Brasil.
Por que você saiu da Meta?
A gente tinha aqui um clima político supertenso, que tinha o inquérito das fake news (no STF) e a tentativa de passar o PL de serviços digitais no Brasil. Eu vinha de um entendimento que o meu trabalho era tornar as plataformas melhores, sem ingenuidade nenhuma, e entendendo muito bem para quem eu trabalhava. A fala do Mark foi completamente irracional do ponto de vista de construção de política pública. Tem muita nuance naquele discurso, que não sei até que ponto a gente consegue passar a quem não estava dentro de uma big tech, mas eu senti que precisava fazer algo muito diferente do que tinha me levado até ali. Eu saí alguns dias depois, esperei decantar. Era importante fazer dessa saída um movimento político. Não quis uma saída silenciosa, quis manifestar que existe oposição a essas decisões vindo de dentro.
Quando entrou na Meta, já eram conhecidos casos como Cambridge Analytica e Facebook Papers. O que a levou à empresa mesmo assim?
Eu vinha de dez anos trabalhando na sociedade civil, na filantropia, acompanhando vários movimentos que eram organizações de direito digital. Eu estava num momento de exaustão com a lógica de tentar transformar as estruturas de poder batendo do lado de fora da porta. Pensei: vou trabalhar lá dentro para reduzir dano e encontrar brechas que vão tornar esses produtos melhores.
Gostaria de ter feito alguma denúncia enquanto estava lá?
Não cheguei nesse ponto. Gostaria de ter sido mais vocal a respeito de como a empresa funcionava. Achava absolutamente pouco transparente.
Daniela da Silva / ativista
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