Anvisa mantém suspensão da ypê em decisão unânime
A diretoria colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ...
A diretoria colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu ontem, por unanimidade, negar o recurso da Ypê e manter a decisão do órgão que suspendeu a fabricação, comercialização e distribuição de uma gama de produtos da empresa da quinta-feira passada.
Na prática, significa que a suspensão da fabricação e comercialização de detergentes, lava-louças líquidos, sabões líquidos para roupas e desinfetantes líquidos com lotes de numeração final 1 permanece válida. Mas o recolhimento foi suspenso pela agência.
O dia de ontem foi de idas e vindas. Pela manhã, os consumidores que entraram em contato com a Ypê para pedir o ressarcimento pelos produtos suspeitos de contaminação receberam um aviso da empresa para informar a chave Pix para receber o ressarcimento.
Mais tarde, após a Anvisa suspender o recolhimento dos produtos, esperando um plano de ação da companhia, a Ypê informou que interromperia o reembolso aos clientes. Pouco depois, divulgou novo comunicado, informando que vai manter a operação de recall como opcional para clientes que quiserem o reembolso. O serviço deve ser solicitado por meio de contato com o serviço de atendimento ao consumidor (SAC).
Em nota, afirmou que a orientação da Anvisa é que os produtos não precisariam ser recolhidos, mas deveriam ser guardados até a emissão de novos laudos:
"Porém, em alinhamento com a Anvisa e devido ao foco na satisfação dos nossos consumidores, a Ypê seguirá atendendo em seus canais oficiais todos aqueles que ainda preferirem efetuar a troca ou obter o ressarcimento pelos produtos adquiridos." (Leia a entrevista do diretor da empresa abaixo.)
Risco grave
Heliakim Junior comprou uma embalagem de 5 litros de detergente Clear Ypê antes de saber da suspensão da Anvisa. Quando soube das notícias, entrou em contato com a empresa por meio do e-mail do SAC. Ontem, três dias depois do primeiro contato, ele recebeu outro e-mail da companhia para dar continuidade ao processo, informando que era necessário preencher um formulário digital com uma foto da nota fiscal do produto comprado e sua chave Pix. Ele conta que forneceu os dados, mas ainda aguarda o pagamento.
" Ainda não sei o que fazer com o frasco de 5 litros " afirma Junior.
O relator do caso na Anvisa, o diretor-geral da agência, Leandro Safatle, votou por manter as proibições devido ao risco sanitário que os fiscais da agência encontraram na fábrica da empresa. A decisão foi acompanhada pelos demais diretores, Daniela Marreco, Marcelo Mario, Daniel Meirelles e Thiago Lopes.
" Nos achados da inspeção, conclui-se haver deficiências sistêmicas nas boas práticas de fabricação, o risco é grave diante da constatação de que lotes contaminados não foram claramente identificados. Isso demonstra que o sistema, além de não prevenir a contaminação, falhou após detectá-lo, não identificando e tratando adequadamente. Portanto, há o risco potencial de produtos contaminados serem comercializados " afirmou Safatle.
A Ypê teve 25 produtos, das linhas de detergentes, sabão líquido e desinfetante, suspensos pela Anvisa e pela Vigilância Sanitária de São Paulo na semana passada. A agência também havia determinado o recolhimento de lotes das fábricas.
Ontem, o relator acolheu o pedido pela suspensão da medida. Na prática, a empresa não precisa fazer o recolhimento agora, mas vai ter que apresentar um plano para isso. O diretor destacou o diálogo com a Ypê para chegar a essa decisão.
" Fica evidente a convergência de interesses entre poder público e empresa, para promover os ajustes necessários, corrigir falhas identificadas e assegurar a sociedade a disponibilização de produtos que atendam ao requisito de qualidade e segurança. Esse processo exige uma atuação firme, mas também equilibrada e responsável " disse o relator na reunião de ontem.
A decisão vale para todos os lotes de detergentes lava-louças, sabões líquidos para roupas e desinfetantes com numeração final 1.
Agora, o recurso apresentado pela empresa seguirá o trâmite normal na agência e um plano de gestão para os produtos já distribuídos, incluindo orientações ao consumidor, deve ser apresentado pela fabricante.
Recomendação é não usar
Segundo a Anvisa, até que o plano de gestão seja iniciado, "a recomendação é que as pessoas não usem os itens suspensos e mantenham esses produtos lacrados ou bem fechados em local seco e ventilado".
A Anvisa afirma que, em reuniões técnicas realizadas nesta semana, a empresa reconheceu que as falhas apontadas pela fiscalização precisam ser corrigidas. Relatou o aporte de investimentos e apresentou mais de 200 ações que estão sendo implantadas nas linhas de produção e controle.
"A expectativa é que a adoção de um plano de gerenciamento para os produtos com risco sanitário, previamente validado pela Anvisa, reforce o controle e monitoramento das ações implementadas. Dessa forma, também é assegurado que as medidas sejam conduzidas de forma organizada e efetiva, reduzindo os riscos à população", disse a agência.
A empresa entrou com recurso contra a medida, o que suspendeu os efeitos da decisão até avaliação do colegiado, que estava marcada para ontem. Ainda assim, a Ypê preferiu interromper a produção na unidade de Amparo (SP) para acelerar o cumprimento das medidas exigidas pelas autoridades sanitárias.
"A empresa está apresentando informações detalhadas e laudos técnicos de microbiologia com verificações realizadas nos processos, bem como a análise de risco para o consumidor", disse a Ypê.
Colaboraram Rafael Garcia
e Roberto Malfacini Jr.