Entorno da escadaria selarón ganha obras de revitalização
Motivo antigo para queixas de moradores e visitantes, o cenário de abandono da Lapa pode estar com ...
Motivo antigo para queixas de moradores e visitantes, o cenário de abandono da Lapa pode estar com os dias contados. A Prefeitura do Rio iniciou ontem as obras para a implantação do Boulevard Selarón, cuja proposta é revitalizar o entorno da Escadaria Selarón, um dos mais concorridos pontos turísticos da cidade. A intervenção integra o Distrito de Arte e Cultura da Lapa, projeto permanente instituído pelo decreto municipal 58.251, de 2 de julho deste ano, para fortalecer diferentes setores na região: patrimônio material e imaterial, produção artística e cultural, vocação para o turismo, programação noturna, empreendedorismo, inovação, economia, paisagem urbana, mobilidade e ocupação qualificada do espaço público.
O pontapé inicial foi dado no âmbito da transformação urbana, com o boulevard que leva o nome do artista chileno Jorge Selarón (1947-2013), criador da escadaria de azulejos coloridos elevada a cartão-postal de fama internacional. Orçadas em R$ 1,7 milhão, as obras, aos cuidados da Secretaria municipal de Infraestrutura, vão abranger uma área de cerca de dois mil metros quadrados nas ruas Joaquim Silva, Teotônio Regadas e Visconde de Maranguape. Entre as ações previstas estão pavimentação, ajustes nas calçadas e a modernização das redes de infraestrutura. A previsão é que as obras sejam concluídas até o fim do ano.
prioridade para pedestres
A Rua Visconde de Maranguape, perto da Sala Cecília Meireles, ganhará uma baia para embarque e desembarque de ônibus e vans de turismo. Na Rua Joaquim Silva, bem em frente à escadaria, a calçada será alargada, privilegiando o movimento de pedestres. Já a Rua Teotônio Regadas terá a pista elevada ao mesmo nível das calçadas. A ideia é priorizar deslocamentos a pé, além de ampliar a acessibilidade.
A intervenção se inicia após frequentadores criticarem a precarização da região. Como mostrou O GLOBO em maio, turistas chamaram a atenção para o mau cheiro, a falta de limpeza, o casario abandonado, a concentração de moradores em situação de rua e calçadas esburacadas, com pedras portuguesas soltas, além de diversos estabelecimentos fechados, nas proximidades dos Arcos.
O Distrito de Arte e Cultura da Lapa será coordenado pela Secretaria municipal de Cultura, em articulação com as secretarias de Conservação, de Desenvolvimento Econômico e de Infraestrutura, a Subprefeitura do Centro e a CET-Rio, entre outros órgãos. A iniciativa poderá ter integração com programas como Reviver Centro, Reviver Cultural e Reviver Patrimônio Pró-Apac.
Os próximos passos do projeto devem ser definidos em até 60 dias, prazo que o Poder Executivo terá para a sua regulamentação, definindo a delimitação territorial do distrito; a composição do Comitê Gestor, de caráter consultivo e propositivo; o plano estratégico; as diretrizes do Circuito Cultural da Lapa; os mecanismos de monitoramento e avaliação; e as formas de integração com os programas municipais de recuperação urbana, preservação do patrimônio e economia criativa.
conexão com o bondinho
Conhecedor do bairro e criador de dois ícones culturais locais, o Circo Voador e a Fundição Progresso, o ator e produtor de eventos Perfeito Fortuna se diz otimista com o projeto e deixa sugestões:
" Acho maravilhoso o poder público se interessar pela Lapa. A rua que dá acesso à Escadaria Selarón, a Joaquim Silva, é um horror. Com a revitalização, espera-se que melhore a conexão com os Arcos da Lapa, onde sugiro que se faça uma parada de bonde, o que vai povoar aquela área. Mais gente andando significa mais segurança. As pessoas poderiam pegar o bonde e seguir até Santa Teresa. Seria genial. A Rua dos Arcos, onde fica a Fundição, também é complicada. Há dois terrenos baldios enormes da Eletrobras, onde se reúnem usuários de drogas, gerando insegurança. Se a prefeitura fizesse um parque ali, cumpriria melhor a função da via de conectar os Arcos à Rua do Lavradio.
O secretário municipal de Cultura, Lucas Padilha, afirma que apresentará um plano para dar nova destinação aos dois terrenos sem ocupação na Rua dos Arcos, mas não antecipou detalhes.
" A Lapa, para ter cada vez mais a vocação de polo de arte e cultura, precisa de intervenções urbanas, como a que começamos hoje (ontem). Mas não somente. Esta é uma política híbrida, de urbanismo com cultura. A ideia é adensar a ocupação artístico-cultural no entorno da Escadaria Selarón " destaca Padilha.
Com a criação do distrito, a prefeitura expande para a Lapa o projeto Reviver Cultural. Por meio desse programa, o poder público busca oferecer incentivos financeiros para que projetos culturais ocupem imóveis vazios.
" Nossas equipes estão na rua visitando imóveis públicos e privados que podem ser objeto de aluguel para negócios de cultura, galerias de arte, escolas de música, ateliês, que podem ser incentivados pela prefeitura. A ideia é abrir oportunidade para quem não está no Centro vir para cá. Isso aconteceu na região do Arco do Teles de forma bem-sucedida e vai acontecer ainda mais na Lapa, tenho certeza " afirmou o secretário de Cultura.
Arquiteto e historiador, Nireu Cavalcanti considera que o projeto deveria ter começado pelo histórico Passeio Público, entre a Escadaria Selarón e a Cinelândia.
" A maior urgência com relação à Lapa é o Passeio Público, o primeiro parque público do Brasil, que está com monumentos degradados. Além disso, o que era jardim virou um grande terreno baldio. Próximo dali, outra prioridade é o antigo prédio do Automóvel Club, que é tombado e está abandonado " aponta o arquiteto.
outros projetos
Em março, a prefeitura anunciou a assinatura do acordo de cessão do prédio do antigo Automóvel Clube do Brasil, na Rua do Passeio, na Cinelândia, para a criação do Museu do Petróleo e Novas Energias. O espaço será gerido pelo Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás e Biocombustíveis (IBP), que assumirá a operação de atividades culturais no Passeio Público. Segundo Lucas Padilha, atualmente o imóvel passa por um processo de restauro.
" Para o Passeio Público, temos um projeto de restauro dos monumentos do Mestre Valentim, o grande escultor do período colonial brasileiro, e do gradil, além da ocupação cultural " disse o secretário. " A Feira da Glória ajudou muito a desenvolver a região da Praça Paris. Entendemos que isso vai avançar rumo ao Passeio Público e à Cinelândia. Então tem uma integração nesses corredores culturais todos.