Domingo, 05 de Julio de 2026

‘Ia vai cortar pela metade o custo de novos remédios’

BrasilO Globo, Brasil 5 de julio de 2026

Entrevista

Entrevista
A inteligência artificial (IA) poderá reduzir pela metade o tempo necessário para desenvolver novos medicamentos e já é aplicada nesse sentido pela farmacêutica dinamarquesa Lundbeck, dedicada a males do cérebro como depressão e ansiedade. É o que diz, em entrevista ao GLOBO, o CEO da filial brasileira, Josiel Florenzano. As etapas repetitivas e até os ensaios clínicos devem ficar mais rápidos e baratos, levando a medicamentos mais acessíveis ao consumidor, avalia o executivo, que está há 40 anos no setor.
A empresa não abre números por país, mas ele diz que o Brasil segue a tendência mundial pós-pandemia de aumento nas vendas de medicamentos psiquiátricos. O grupo centenário " que acaba de completar 25 anos no Brasil e destina 20% do faturamento ao desenvolvimento de novas drogas, o equivalente a R$ 4 bilhões em 2025 " tem investido mais agora na frente neurológica, na trilha do aumento da longevidade. Florenzano, que dirige a Lundbeck Brasil no Rio desde a década passada, mostra-se otimista principalmente em relação à chegada ao mercado em pouco tempo de novos remédios para epilepsias raras e as doenças de Parkinson e Alzheimer.
Qual é a importância do Brasil para a Lundbeck?
A Lundbeck tem mais de 100 anos. No Brasil, somos jovens ainda, mas, no nosso ranking global, o país tem ficado entre o oitavo e o nono mais importantes. De cada dez pacientes que tomam antidepressivo no Brasil, três usam um produto da Lundbeck ou (genérico) que tem origem em pesquisa da companhia. Ou seja, quase um terço dos pacientes que tratam depressão no país tem a pesquisa da Lundbeck por trás. Há outras empresas que também trabalham com o sistema nervoso central, mas a Lundbeck é a única que se dedica 100% a isso. Todos os nossos investimentos e pesquisas estão relacionados a doenças mentais.
Esse é um mercado crescente? Há diferença no Brasil em relação ao mundo?
Percebemos nos anos após a pandemia um aumento significativo do uso desse tipo de medicação. O Brasil seguiu essa tendência global. Com o confinamento em casa, o desemprego, a perda de um ente querido, ficar num ambiente totalmente isolado, fechado do mundo, o medo de morrer, todas essas questões somadas geraram um aumento de doenças da mente, principalmente ansiedade, que, maltratada, pode virar uma depressão. Houve uma mudança na cultura e na educação sobre essa área, o que tem aumentado não exatamente o índice de doentes, mas de diagnósticos. E, consequentemente, as pessoas estão mais tratadas.
O envelhecimento da população também influencia?
Com a expectativa de vida aumentando, algumas doenças crescem, e as mentais e neurológicas estão entre elas. Se você pensar em Alzheimer e Parkinson, são doenças tipicamente de idades acima de 60 anos e terão mais incidência. Isso motiva a indústria, a pesquisa, que está está muito relacionada a necessidades ainda não atendidas.
Qual avanço científico nessa área o deixa mais otimista?
Fiz minha carreira na área comercial, não sou um médico ou especialista, mas a maior expectativa que vemos entre os cientistas é na área do Alzheimer. Porque hoje o que a gente tem ajuda a estabilizar ou diminuir a rapidez da evolução da doença, mas não há algo que trate de forma eficaz. Eu diria que daqui a oito, dez anos teremos alguma solução importante nesse segmento.
Empresas de IA estão lançando sistemas voltados para processos científicos. Como a IA está transformando o setor?
Se tem uma área que está sendo mais beneficiada pela IA na indústria farmacêutica é a de pesquisa e desenvolvimento. Temos usado IA nas áreas comercial, regulatória, administrativa em geral, para treinamento, para nos ajudar na melhora de eficiência. Mas é na área de pesquisa e desenvolvimento onde a gente tem se beneficiado mais, especialmente para a celeridade dos processos. A pesquisa de um novo medicamento começa analisando centenas de moléculas, demora de 12 a 15 anos. Há hoje a expectativa de que, em breve, esse prazo vai ser reduzido ao menos pela metade. Teremos mais produtos inovadores disponíveis rapidamente no mercado. E o custo possivelmente vai ser cortado pela metade. O impacto do custo da pesquisa vai também para o bolso do consumidor. Inclusive os ensaios clínicos vão ser acelerados. Se você pensar numa doença rara, encontrar um paciente para incluir no estudo clínico é muito difícil. Mas a IA poderá ajudar até nisso, nessa busca.
Sabemos que o trabalho é hoje uma das principais causas de males mentais. Como gestor de uma equipe de 120 empregados no Brasil, que cuidados o senhor toma para evitar que eles se tornem consumidores de medicamentos da empresa?
Ficamos positivamente surpresos quando fomos agora implementar a parte de saúde mental da NR-1 (norma que rege segurança no trabalho e passou a exigir a gestão de riscos de doenças psicossociais), porque grande parte dos itens mandatórios nós já praticávamos. Por exemplo, atividades de bem-estar e relaxamento na empresa, horário flexível, home office em sistema híbrido, área de convivência no escritório. Já tínhamos um programa de saúde mental que permite às pessoas ligarem de forma anônima para serem atendidas, além de treinamento constante de comunicação não violenta e combate ao assédio. O assédio moral hoje é um dos grandes causadores de questões mentais nas empresas. São coisas sutis, que vão se acumulando. Estando numa empresa focada em saúde mental, seria incoerente a gente não trabalhar essas questões com nossos funcionários. Não acredito na separação do indivíduo profissional e pessoal. Não saio para trabalhar, tranco minha porta e falo: problema de casa, fique aí. Somos seres únicos. Preciso desenvolver uma liderança que entenda as questões individuais, sem ser invasivo na vida pessoal das pessoas. Se uma está com o filho doente em casa, não posso exigir que produza a mesma coisa naquele dia. Quando falo em gestão humanizada, é entender e ajudar o indivíduo.
Josiel Florenzano / presidente da Lundbeck Brasil
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