O bar que não grita
pé-sujo & pé-limpo
pé-sujo & pé-limpo
A melhor notícia deste fim de Copa não chegou por alerta no celular. Encontrei-a numa hora de almoço: o Bar Brasil tem ficado cheio. A casa sempre abriu nesse horário, mas, de um tempo para cá, as mesas estão mais ocupadas, os garçons cruzam o salão e os copos chegam com a espuma ainda subindo. Depois de um mês de Mundial em que, para mim, quase tudo passou por telas, estádios e fusos, dá conforto encontrar a vida acontecendo na velha velocidade de um bar.
Há uma Lapa antes da porta do Bar Brasil e outra depois que se entra. Do lado de fora, quando o dia avança, caixas de som disputam a rua e muitas casas parecem obrigadas a demonstrar animação. Lá dentro, o teto alto devolve espaço à conversa, as geladeiras antigas seguem trabalhando, a madeira escureceu com o uso e o salão conserva um ar de armazém alemão que nenhuma reforma temática reproduziria.
O Bar Brasil está ali desde 1907, primeiro como Zeppelin, depois com o nome que atravessou o século e, neste fim de Copa, ganhou certa ironia. Enquanto o Brasil não cumpriu o que prometia, o Bar Brasil continua entregando exatamente o que anuncia. Sobreviveu a guerras, crises, mudanças de gosto e sucessivas invenções da noite carioca. O tempo não virou conceito. Ficou nas paredes, nos móveis, na chopeira e na impressão de que cada coisa permanece porque ainda cumpre sua função.
Há bares novos tentando comprar essa aparência. Pendura-se uma placa antiga, envelhece-se um espelho, espalham-se objetos que ninguém jamais usou e nasce uma tradição pronta para fotografia. No Bar Brasil, o passado não serve de decoração. As coisas são bonitas porque foram gastas, e o salão tem alma porque muita gente já deixou algo de si ali dentro.
A comida participa dessa continuidade. O patê tem gosto de mercearia alemã e pede que se leve um pouco para casa. Os croquetes mudaram, tema sensível entre fregueses antigos, mas continuam muito bons. As salsichas, o chucrute e a salada de batata chegam em porções generosas, e o kassler, carne defumada e sem frivolidade, resolve o almoço com a autoridade dos pratos que sabem para que existem.
O chope explica o resto. O colarinho cresce quando o líquido bate no fundo do copo e levanta a própria espuma, alta, viva, carioca. Em muitos bares recentes, a cobertura cremosa é servida depois, também deliciosa. No Bar Brasil, porém, não é peruca, é espuma de verdade. O copo chega à mesa como resultado de um gesto aprendido, repetido milhares de vezes e ainda executado com respeito.
A contradição aparece quando a noite baixa e a Lapa vira a Lapa. A casa às vezes se esvazia mais do que merece, enquanto bares ao redor, com cara de balada e pouco a dizer, lotam. Isso me entristece mais do que deveria. Costumo passar ali antes de um show no Circo Voador e depois vou ouvir música alta. Existe uma ordem para essas coisas. Primeiro contemplo o bar. Sento, peço um chope, deixo o olho percorrer o salão, como alguma coisa. Só então atravesso para o barulho.
A Lapa anda perdendo esse intervalo. Tudo precisa começar no auge, com volume, urgência e uma alegria anunciada para a calçada. O Bar Brasil oferece a preparação da noite, o primeiro copo, a conversa sem esforço e alguns minutos para perceber onde se está.
Termino o chope, saio para a rua e a Lapa volta a gritar. Atrás de mim, o Bar Brasil permanece inteiro, sem pedir atenção. Há mais de um século, sabe que permanecer também é uma maneira de falar. Mas não muito alto, por favor.