Jueves, 16 de Julio de 2026

O bar que não grita

BrasilO Globo, Brasil 16 de julio de 2026

pé-sujo & pé-limpo

pé-sujo & pé-limpo
A melhor notícia deste fim de Copa não chegou por alerta no celular. Encontrei-a numa hora de almoço: o Bar Brasil tem ficado cheio. A casa sempre abriu nesse horário, mas, de um tempo para cá, as mesas estão mais ocupadas, os garçons cruzam o salão e os copos chegam com a espuma ainda subindo. Depois de um mês de Mundial em que, para mim, quase tudo passou por telas, estádios e fusos, dá conforto encontrar a vida acontecendo na velha velocidade de um bar.
Há uma Lapa antes da porta do Bar Brasil e outra depois que se entra. Do lado de fora, quando o dia avança, caixas de som disputam a rua e muitas casas parecem obrigadas a demonstrar animação. Lá dentro, o teto alto devolve espaço à conversa, as geladeiras antigas seguem trabalhando, a madeira escureceu com o uso e o salão conserva um ar de armazém alemão que nenhuma reforma temática reproduziria.
O Bar Brasil está ali desde 1907, primeiro como Zeppelin, depois com o nome que atravessou o século e, neste fim de Copa, ganhou certa ironia. Enquanto o Brasil não cumpriu o que prometia, o Bar Brasil continua entregando exatamente o que anuncia. Sobreviveu a guerras, crises, mudanças de gosto e sucessivas invenções da noite carioca. O tempo não virou conceito. Ficou nas paredes, nos móveis, na chopeira e na impressão de que cada coisa permanece porque ainda cumpre sua função.
Há bares novos tentando comprar essa aparência. Pendura-se uma placa antiga, envelhece-se um espelho, espalham-se objetos que ninguém jamais usou e nasce uma tradição pronta para fotografia. No Bar Brasil, o passado não serve de decoração. As coisas são bonitas porque foram gastas, e o salão tem alma porque muita gente já deixou algo de si ali dentro.
A comida participa dessa continuidade. O patê tem gosto de mercearia alemã e pede que se leve um pouco para casa. Os croquetes mudaram, tema sensível entre fregueses antigos, mas continuam muito bons. As salsichas, o chucrute e a salada de batata chegam em porções generosas, e o kassler, carne defumada e sem frivolidade, resolve o almoço com a autoridade dos pratos que sabem para que existem.
O chope explica o resto. O colarinho cresce quando o líquido bate no fundo do copo e levanta a própria espuma, alta, viva, carioca. Em muitos bares recentes, a cobertura cremosa é servida depois, também deliciosa. No Bar Brasil, porém, não é peruca, é espuma de verdade. O copo chega à mesa como resultado de um gesto aprendido, repetido milhares de vezes e ainda executado com respeito.
A contradição aparece quando a noite baixa e a Lapa vira a Lapa. A casa às vezes se esvazia mais do que merece, enquanto bares ao redor, com cara de balada e pouco a dizer, lotam. Isso me entristece mais do que deveria. Costumo passar ali antes de um show no Circo Voador e depois vou ouvir música alta. Existe uma ordem para essas coisas. Primeiro contemplo o bar. Sento, peço um chope, deixo o olho percorrer o salão, como alguma coisa. Só então atravesso para o barulho.
A Lapa anda perdendo esse intervalo. Tudo precisa começar no auge, com volume, urgência e uma alegria anunciada para a calçada. O Bar Brasil oferece a preparação da noite, o primeiro copo, a conversa sem esforço e alguns minutos para perceber onde se está.
Termino o chope, saio para a rua e a Lapa volta a gritar. Atrás de mim, o Bar Brasil permanece inteiro, sem pedir atenção. Há mais de um século, sabe que permanecer também é uma maneira de falar. Mas não muito alto, por favor.
La Nación Argentina O Globo Brasil El Mercurio Chile
El Tiempo Colombia La Nación Costa Rica La Prensa Gráfica El Salvador
El Universal México El Comercio Perú El Nuevo Dia Puerto Rico
Listin Diario República
Dominicana
El País Uruguay El Nacional Venezuela