Sábado, 22 de Agosto de 2026

Marcão, das peladas em santíssimo a porto seguro do fluminense

BrasilO Globo, Brasil 22 de agosto de 2026

benção tricolor

benção tricolor
É praticamente impossível falar de Marcão sem falar de Fluminense. Afinal, os dois parecem caminhar juntos desde sempre. Se, após a classificação na Libertadores, o interino comanda hoje um reenergizado time diante do Remo, às 16h, no Maracanã, pelo Brasileirão, é preciso voltar ao fim da década de 1980, quando o jovem Marco Aurélio de Oliveira era apenas um humilde jogador de pelada em Santíssimo, na Zona Oeste do Rio, para traçarmos o caminho até o início de uma relação que se mostrou eterna com o tricolor.
Até os 18 anos, o jovem chamado carinhosamente de Marcão pelos amigos dividia o futebol de subúrbio com o trabalho de torneiro-mecânico. Seguiu sonhando por incentivo de seu pai, seu Moacir. E foi com a camisa do Mordomia FC que o estagiário pelo Senai viveu o momento de virada de chave em sua vida, quando já pensava em desistir do esporte: um gol num jogo-treino contra o Bangu, em 1989, abriu as portas do clube de Moça Bonita para seu futebol.
Incorporado às categorias de base com uma idade em que muitos jovens já sobem para o profissional, Marcão foi promovido ao time principal em 1992, aos 21 anos, pelo técnico Dé Aranha na Série B. Foi só em dezembro de 1999, após rodar sem sucesso por Criciúma, Bragantino e passar brevemente por um quadro alternativo do Vasco, que o volante chamou a atenção do Flu no Campeonato Carioca.
Moral com Parreira
O clube disputava a Série C do Brasileiro, e o volante rapidamente conquistou espaço na equipe do técnico Carlos Alberto Parreira. Uma reportagem do GLOBO daquele período, assinada por Milton Costa Carvalho, o descrevia como o "xodó" do treinador. Aos 27 anos, Marcão celebrava:
" Faço taticamente o que ele pede. Meu futebol cresceu e hoje sei que não devo me preocupar em armar jogadas, como fazia. Meu negócio é ali atrás, cobrindo e protegendo os zagueiros. Com 27 anos, chegou a minha vez de correr atrás do prejuízo.
Volante de forte marcação e pouca preocupação com os holofotes, tornou-se peça importante na campanha que tirou o Fluminense do fundo do poço. Parreira chegou a compará-lo a um de seus titulares na seleção tetracampeã do mundo:
" Confio nele. Me lembra o Mauro Silva, pela capacidade de marcação implacável e pela regularidade durante os 90 minutos. Não tenho ninguém para substituí-lo.
A relação com o Fluminense se consolidou nos anos seguintes. Marcão disputou quase 400 jogos pelo clube entre 1999 e 2006, conquistou dois Cariocas, além da Série C, e tornou-se capitão. Em 2005, marcou um dos gols do título estadual contra o Volta Redonda.
Naquele mesmo ano, deixou o Flu para jogar no Catar, em busca de independência financeira. Na despedida, porém, deixou clara a dimensão de sua relação com o clube: "Agora, sou o torcedor número um do Fluminense". Pouco mais de um mês depois, estava de volta às Laranjeiras, prestigiado com a braçadeira de capitão pelo então técnico Abel Braga.
"Não" ao Flamengo
Depois de pendurar as chuteiras em 2011, pelo Bangu, assumiu como técnico do time. Antes de voltar ao Flu em 2019 para a comissão técnica permanente, foi auxiliar técnico de 2014 a 2016. Nos dois períodos, foi chamado para assumir a equipe em momentos de turbulência. Em 2019, chegou a ser efetivado e ganhou uma sequência maior, quando ajudou o clube a escapar do rebaixamento. Em 2021, conduziu a equipe à classificação para a Libertadores. No mesmo ano, recusou uma proposta do Flamengo, resumindo o motivo da rejeição em uma carta aberta, na qual exaltou a sua ligação com o Fluminense: "Não há dinheiro capaz de superar a paixão de uma vida".
A identificação nunca significou acomodação para Marcão, que buscou formação para a nova carreira: fez cursos de treinador, obteve licenças da CBF e concluiu, em 2026, a faculdade de Educação Física pela Estácio de Sá, iniciada mais de uma década antes.
Auxiliar técnico na conquista da Libertadores de 2023, chorou na preleção da final contra o Boca Juniors, no Maracanã, ao lembrar tudo o que havia vivido no clube:
" Tudo que passei como jogador, como treinador interino, tudo foi resumido naquele momento " contou o ex-volante ao Globo Esporte.
A longa trajetória de dedicação ao clube é recompensada com a gratidão dos tricolores. E ganhou novo capítulo ao ser acionado mais uma vez, após a saída de Luis Zubeldía. E, em pouco mais de uma semana, Marcão conseguiu fazer torcida e clube voltarem a sonhar com um fim de temporada melhor.
* Jornalista participante do curso Jornalismo do Futuro, do GLOBO, sob supervisão
de Felipe Siqueira.
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