Ciência para transformar cascas, resíduos e sementes em bioativos com mais valor
A partir de uma fruta tropical como a jabuticaba, cientistas brasileiros desenvolveram ...
A partir de uma fruta tropical como a jabuticaba, cientistas brasileiros desenvolveram extrato capaz de reduzir em até 40% o ganho de peso e em até 80% o colesterol ruim de uma pessoa. A casca da fruta é rica em pigmentos que possuem propriedades terapêuticas já comprovadas, que controlam a glicemia, reduzindo em até 40% os níveis de açúcar no sangue, aumentam o colesterol bom e reduzem o acúmulo de gordura no fígado.
Assim como no caso da jabuticaba, um grupo de 30 cientistas acaba de lançar a plataforma de inovação AgroBioValor, que busca eliminar o gargalo entre a ciência produzida nas universidades e o setor produtivo. Com a plataforma, que em breve estará na internet, a ideia é converter subprodutos do agro, como sementes, cascas, folhas, e até resíduos de origem animal, em compostos bioativos (substâncias que trazem benefícios à saúde) para indústrias de alimentação, saúde e cosméticos.
" Existe uma ciência brasileira de alto nível sendo produzida, mas esse conhecimento está majoritariamente restrito às universidades e centros de pesquisa e não se transforma em produtos comerciais. As descobertas dos cientistas brasileiros acabam sendo aplicadas mais rapidamente pelo mercado externo, por meio de empresas estrangeiras, do que pela própria indústria nacional " diz Glaucia Maria Pastore, cientista de alimentos da Unicamp, que coordena a plataforma, e ela mesma uma estudiosa da biodiversidade brasileira, que pesquisou frutas tropicais como o araticum, típica do Cerrado, detectando a presença de polifenóis, compostos naturais com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, que ajudam na defesa do corpo.
só 0,1% do faturamento
A plataforma AgroBioValor já atraiu pesquisadores da USP, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq), UFRJ, Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade Federal de Montes Claros (Unimontes). O objetivo é juntar cientistas, atrair investidores e empresários do setor privado, para impulsionar a indústria de bioativos no Brasil, usando inclusive recursos públicos, como da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), ou privados através de empresas que investirem via Lei do Bem, que dá incentivos fiscais a quem investe em pesquisas de inovação.
Estudo recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) faz projeção de que a bioeconomia baseada no conhecimento pode gerar de US$ 100 bilhões a US$ 140 bilhões por ano até 2032 no Brasil. Os bioativos, que se tornaram o centro de uma estratégia global de saúde preventiva e retardamento do envelhecimento, podem movimentar entre US$ 2 trilhões a US$ 4 trilhões anuais nas próximas décadas, apontou a consultoria McKinsey, citada pela CNI.
O trabalho da CNI mostra que nenhum dos dez fitoterápicos mais vendidos no país usa espécies da biodiversidade brasileira. O país participa de apenas 0,1% do faturamento global da indústria de medicamentos à base de plantas medicinais, deixando de arrecadar R$ 1 bilhão por ano.
O caso da jabuticaba é emblemático e a fruta em si passou a ser subproduto, já que os compostos da casca, usados para a saúde e o envelhecimento saudável, apresentam mais valor comercial. Mário Maróstica, professor na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, que coordenou os estudos com a fruta, lembra que além de aumentar o colesterol bom, os pigmentos da casca atuam como agentes terapêuticos eficazes na prevenção da inflamação e na preservação do tamanho adequado da próstata. Isso é possível pela presença de compostos fenólicos antioxidantes, especialmente antocianinas (que dão a cor avermelhada) e taninos (que trazem adstringência ao ingerir o fruto), ambos bioativos.
" As pesquisas com a fruta começaram em 2008, e o estudo dos bioativos da fruta há cerca de uma década. Fizemos o pedido de patente em 2017 e a tecnologia foi licenciada em caráter não exclusivo para a Rubian Extratos, startup que escalou a produção industrial e lançou o produto MetaBody " lembra Maróstica.
identificar subprodutos
O empresário Luiz Augusto Pereira Monguilod foi um dos primeiros a integrar a plataforma AgroBioValor. Ele atua na cafeicultura há mais de 30 anos e tem lavouras em Minas Gerais, Bahia e Roraima. Sua área de produção de café é próxima de mil hectares. Atualmente, o único produto comercializado pelas fazendas é o grão de café verde.
" O grande volume gerado pela colheita é composto por casca e palha, destinado à compostagem, produzindo 6 mil toneladas de composto nutritivo por ano para adubação. Estou buscando uma nova fronteira de sustentabilidade e quero dar destinação nobre a essa produção " diz ele, que já produz bioinsumos.
A ideia é extrair açúcares, aminoácidos, enzimas e compostos orgânicos na pele e na casca do café para fins farmacêuticos e de consumo, gerando produtos de altíssimo valor agregado (como antioxidantes em pó ou sachês, e substâncias de suporte neural).
O médico veterinário José Nélio de Sousa Sales, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e vice-coordenador da plataforma AgroBioValor lembra que por ter o maior rebanho bovino do mundo e ser o maior exportador de carne, há potencial gigantesco e subaproveitado para a indústria de subprodutos animais:
" A oportunidade está em identificar e extrair substâncias terapêuticas, farmacêuticas e nutricionais dessas partes animais (com destaque para vísceras, como fígado, coração e baço, e para o sangue), elevando a rentabilidade.
Entre os compostos, ele destaca a taurina, um aminoácido que atua protegendo as células por meio de uma ação antioxidante, e que está presente em órgãos como fígado, coração e baço dos animais. Atualmente, toda a taurina utilizada industrialmente é sintética " fabricada em laboratório.
Através de sua divisão de novos negócios, a JBS já vem aplicando o conceito de economia circular em suas operações, e aproveita 99% de cada bovino e quase 95% de aves e suínos. A Genu-in, operação lançada recentemente pelo frigorífico, usa couro bovino para produzir peptídeos de colágeno, colágeno e gelatina, com capacidade de 12 mil toneladas/ano. A Novapron+ produz colágeno funcional para melhorar atributos como textura, suculência e rendimento dos alimentos. Também integra a JBS Novos Negócios a Orygina, que usa soro bovino no desenvolvimento de insumos para a indústria farmacêutica.