‘Biotecnologia guarda as chaves dos grandes desafios globais’
Entrevista
Entrevista
Engenheiro de produção e ex-pesquisador do Instituto Fraunhofer, na Alemanha, o empresário Gabriel Bottos deu uma guinada em sua carreira após um drama familiar. Sua sobrinha, Helena, de 4 anos, sobreviveu a um câncer metastático agressivo graças a um estudo experimental em Madri. Bottos e outros três sócios decidiram criar uma empresa com o objetivo de transformar a ciência de ponta produzida em universidades em negócios de escala mundial.
Diferentemente de um fundo de investimento, a Vesper não aporta apenas recursos em empresas já constituídas. Ela cria o negócio, atua na gestão e governança e ajuda a empresa a se estruturar e crescer. São oito em seu portfólio focadas em saúde humana e agronegócio. Pela sua natureza disruptiva e capacidade de gerar impacto social real, além do retorno financeiro, a Vesper tem chamado a atenção de investidores e já captou mais de R$ 200 milhões. Entre os investidores recentes, estão membros da família Lafer (Klabin) e Setubal (Itaú).
Qual é o modelo de negócios da Vesper?
A Vesper é a primeira venture builder (empresa que cria e desenvolve negócios) brasileira especializada em biotecnologia avançada. Funciona como uma holding que identifica pesquisas científicas promissoras em universidades, recruta cientistas e constrói empresas do zero, fornecendo capital, infraestrutura e gestão para transformar inovação acadêmica em negócios de alcance global. Foi fundada em 2018, em Florianópolis, e nasceu com o propósito de resolver problemas globais relevantes e preencher o abismo existente entre a academia e a indústria no Brasil.
Quanto a Vesper já captou no mercado e qual a meta?
Já mobilizamos mais de R$ 200 milhões entre capital privado e subvenção econômica. A Vesper está finalizando uma rodada de US$ 15 milhões (aproximadamente R$ 75 milhões) até o final de 2026. Desta rodada específica, cerca de R$ 25 milhões foram anunciados recentemente, contando com aportes de famílias como Lafer e Setubal, além das gestoras ACNext e Rise Ventures, focadas em negócios inovadores e de impacto socioambiental. A partir do próximo ano, a meta é captar entre US$ 50 milhões e US$ 60 milhões, e este capital vai diretamente para empresas do portfólio e não para a holding, com foco principal em investidores internacionais. Os recursos captados estão sendo usados para completar as validações de campo nos projetos de agricultura e iniciar testes clínicos (em humanos) nas empresas da vertical de saúde.
Quantas empresas tem hoje?
Até o momento, há oito empresas ativas. Elas estão divididas em duas verticais principais: saúde humana (cinco empresas) e agrobiotecnologia (três). O foco em saúde humana é o desenvolvimento de terapias para doenças complexas e sem tratamentos eficazes atualmente, como câncer, doenças autoimunes e demências. Por exemplo, uma de nossas empresas é a Vyro Biotherapeutics, especializada no uso de vírus modificados (como o Zika vírus) para tratar tumores cerebrais, utilizando a capacidade do vírus de atingir o cérebro para destruir seletivamente as células tumorais. A primeira molécula brasileira desenhada inteiramente por inteligência artificial (IA) para o tratamento de câncer está sendo desenvolvida pela Cellertz, uma de nossas empresas.
E no agro? Quais os focos?
Nessa área, o objetivo é aumentar a produtividade e a resiliência climática das lavouras, reduzindo a dependência de produtos químicos. Uma de nossas empresas, a Symbiomics, desenvolve a próxima geração de bioinsumos, utilizando edição genética e IA. A InEdita Bio, outra empresa desse setor, está focada em edição genômica de plantas (sem transgenia) para criar culturas como soja, milho e algodão que sejam biologicamente resistentes a pragas e doenças, como a ferrugem asiática.
Qual a participação da holding nas empresas? E como a Vesper se rentabiliza?
Em média, a Vesper tem participação de cerca de 30% nas empresas. O modelo de rentabilidade da Vesper não se baseia na venda direta de produtos ao consumidor final, como remédios em farmácias, mas na geração de liquidez dos ativos que cria. Ou seja, a estratégia principal é desenvolver a tecnologia até um ponto de validação (como testes de segurança e eficácia em humanos ou validações definitivas em campo) e, então, vender a empresa para grandes multinacionais farmacêuticas ou do agronegócio. Este é o caminho seguido por cerca de 80% dos inovadores globais nesses setores. A Vesper também pode optar por não vender a empresa inteira, mas licenciar a propriedade intelectual a grandes grupos globais em troca de royalties. E existe a possibilidade de listar as empresas nas principais Bolsas de valores do mundo.
A Vesper atua na gestão da empresa?
A Vesper identifica a pesquisa, recruta os cientistas e cria o CNPJ, atuando como cofundadora de todas as iniciativas. A Vesper trabalha junto com o cientista na gestão e governança, agregando estratégia de propriedade intelectual e práticas de gestão internacional. Já temos 19 patentes. Os registros são feitos diretamente nos EUA e, depois, a proteção é expandida a outros mercados. Isso garante segurança jurídica para atrair investidores estrangeiros.
O senhor é engenheiro de produção. Por que se interessou pela área de biotecnologia?
Tenho especialização em lasers de alta potência e experiência como pesquisador no Instituto Fraunhofer, na Alemanha. Sempre fui empreendedor. Mas um propósito pessoal de buscar negócios que fossem bons para o mundo e uma experiência familiar foram transformadores. Minha sobrinha foi diagnosticada aos 4 anos com um câncer metastático classe 4 e tinha menos de 3% de chance de sobrevivência. Ela foi salva por um estudo experimental em Madri, o que fez com que me dedicasse à biotecnologia para resolver problemas de saúde tão graves quanto esse. Apesar de o Brasil ter uma biodiversidade imensa, medicina de referência e cientistas brilhantes, o país não conseguia transformar essa ciência em empresas de alcance global. Há um abismo entre a universidade e o mercado, onde faltava gestão e capital para as pesquisas de ponta. A biotecnologia guarda as chaves dos grandes desafios globais, tanto na saúde quanto na agricultura sustentável.
Gabriel Bottos/ ceo DA VESPER