Lunes, 31 de Agosto de 2026

Software vira ‘sistema nervoso’ da guerra de drones da ucrânia

BrasilO Globo, Brasil 31 de agosto de 2026

As telas, que exibiam imagens ao vivo de drones no campo de batalha, piscavam com quadros ...

As telas, que exibiam imagens ao vivo de drones no campo de batalha, piscavam com quadros de cores diferentes: verde para equipamentos russos, azul para forças ucranianas e laranja quando era difícil distinguir amigos de inimigos. Então, um quadro ficou vermelho, indicando um soldado russo correndo ao longo de uma fileira de árvores. As tropas ucranianas que acompanhavam as imagens de um posto de comando subterrâneo entraram imediatamente em ação. Um oficial registrou as coordenadas do soldado russo em um computador. O sistema colocou automaticamente um marcador em formato de losango em um mapa digital do campo de batalha, visível para todas as unidades nas proximidades. Em poucos minutos, três drones de ataque estavam no ar, aproximando-se do alvo.
O primeiro drone errou. Mas o oficial de plantão enviou a localização do ataque e um vídeo da investida para equipes de drones de outras duas unidades, para que também tentassem matar o soldado russo. A sequência perturbadora " detecção, rastreamento, ataque " foi orquestrada por um poderoso software desenvolvido pela Ucrânia, chamado Delta.
Elogios dos EUA e da Otan
O software reúne fluxos de informações do campo de batalha, incluindo imagens transmitidas por drones, interceptações de rádio e imagens de satélite, em uma única plataforma que ajuda a detectar alvos. O sistema, então, distribui os alvos para milhares de drones de reconhecimento e ataque que voam ininterruptamente, ajudando a criar uma "zona de morte" com quilômetros de extensão, onde qualquer coisa que se mova pode ser detectada e atingida em questão de segundos.
O coronel Artem Martynenko, responsável por supervisionar o desenvolvimento do Delta para o Ministério da Defesa, definiu o software como o "sistema nervoso" do exército de drones ucraniano, que ajudou a praticamente conter os avanços russos.
O Delta começou a chamar a atenção de exércitos ocidentais. Daniel Driscoll, secretário do Exército dos EUA, classificou o software como "absolutamente incrível". As forças da Otan constataram seu potencial no ano passado, durante um exercício na Estônia em que unidades de drones ucranianas dizimaram formações da aliança em simulações.
O sistema de gerenciamento do Delta "integra completamente cada drone, cada sensor e cada plataforma de disparo em uma única rede", disse Driscoll ao Senado em maio, acrescentando:
" O nosso não faz isso.
Especialistas afirmam que softwares como o Delta são a próxima fronteira da guerra. Com o campo de batalha já saturado de drones, a vitória depende menos da quantidade de equipamentos utilizados e mais da velocidade com que eles podem ser enviados para atacar. Ucrânia e Rússia competem para desenvolver o melhor sistema, e ambas recorrem à inteligência artificial para obter vantagem.
As origens do Delta remontam há mais de uma década. Em 2014, um grupo de voluntários ucranianos que combatia forças separatistas apoiadas pela Rússia no leste da Ucrânia começou a experimentar drones de reconhecimento. A ideia era melhorar a precisão dos ataques e substituir ferramentas antigas, como binóculos. Mas os dados coletados pelos drones demoravam a chegar ao destino. Para levar as informações de inteligência às unidades de artilharia, era necessária uma série de chamadas de rádio. Quando finalmente era possível disparar contra o alvo, ele havia desaparecido, conta Yaroslav Honchar, um dos fundadores do grupo Aerorosvidka.
O Delta foi criado como solução. O software começou como um mapa digital compartilhado no qual era possível marcar alvos. O projeto também contou com a colaboração da Otan, afirma Honchar, na esperança de aproximar a Ucrânia da própria doutrina da aliança de coordenação rápida das forças no campo de batalha. Ainda assim, Honchar reconhece que, durante anos, o Exército ucraniano resistiu à adoção do sistema, mantendo mapas de papel e transmissores de rádio.
Então, a Rússia invadiu o país no início de 2022. Enquanto colunas de forças russas avançavam em direção à capital ucraniana, Kiev, Honchar foi chamado para ajudar a encontrar seus pontos fracos. Trabalhando de um quartel-general dentro da cidade quase cercada, ele usou o Delta para transformar uma avalanche de informações " incluindo relatos de civis que observavam tanques passando diante de suas casas " em uma imagem em tempo real do avanço de Moscou. Em poucos dias, tropas ucranianas de contra-ataque começaram a atingir pontos mais vulneráveis, obrigando as forças russas a recuar.
de 20 para 3 minutos
O Delta mostrou como uma visão mais precisa do campo de batalha pode ajudar a derrotar uma força muito maior, afirma Honchar. A partir daí, o sistema se espalhou pelas Forças Armadas e, no ano passado, tornou-se o sistema unificado de gerenciamento do campo de batalha da Ucrânia.
O sistema foi apresentado recentemente no posto de comando do 1º Regimento de Assalto Separado, no leste da Ucrânia, onde dezenas de telas davam ao bunker subterrâneo a aparência de uma central de controle de tráfego aéreo. Oficiais ficavam diante das telas, digitando dados em laptops. Reclinado em uma cadeira gamer, o comandante, cujo codinome é Pyrotechnician, observava confortavelmente a cena enquanto as máquinas realizavam a tarefa trabalhosa de reunir todos os dados. Ele disse que se lembrava dos dias de longas conversas pelo rádio.
" Agora, você simplesmente fica ali, com internet, abre os mapas e consegue ver quem está onde e fazendo o quê.
Ao integrar ferramentas de reconhecimento e ataque, o Delta também reduziu o que os soldados chamam de "cadeia de ataque" " o tempo entre identificar um alvo e atingi-lo. Um chefe de Estado-Maior de um batalhão do Corpo Khartiia afirmou que antes eram necessários pelo menos 20 minutos entre o momento em que uma unidade informava a posição inimiga e o disparo dos primeiros projéteis de artilharia. Agora, são de três a cinco minutos.
" Quanto mais rápida for sua cadeia de ataque, maior será a probabilidade de você vencer " explica Kateryna Bondar, pesquisadora do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS).
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