Lunes, 14 de Septiembre de 2026

‘O sionismo cristão não se justifica do ponto de vista bíblico, moral e ético’

BrasilO Globo, Brasil 14 de septiembre de 2026

Entrevista

Entrevista
O pastor e teólogo Munther Isaac chamou atenção do resto do mundo no Natal de 2023, quando apresentou, na Igreja Evangélica Luterana da Natividade, em Belém, na Cisjordânia, um presépio no qual o Menino Jesus aparecia enrolado em um lenço palestino em meio às ruínas da guerra. "Se Cristo fosse nascer hoje, ele nasceria sob os escombros de Gaza", pregou o pastor no culto de Natal. "Cristo nos escombros" é também o título do livro que Isaac lançou em inglês no ano passado e que agora chega ao Brasil pela editora Thomas Nelson.
No livro, ele explica as origens do conflito no Oriente Médio [a fundação de Israel, em 1948, resultou na expulsão de mais de 750 mil palestinos de seus territórios], descreve o Estado judeu como "um regime de apartheid" e denuncia o racismo e a teologia como forças que possibilitaram o que ele chama de "genocídio" em Gaza. Isaac veio ao Brasil para participar da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que acabou ontem, e do Fórum de Escuta: a Voz da Igreja Palestina, concebido para aproximar os cristãos palestinos das igrejas evangélicas brasileiras.
Atualmente, Isaac é diretor do Instituto de Belém para a Paz e a Justiça e pastor da comunidade evangélica luterana em Ramallah, capital administrativa da Cisjordânia. Ao GLOBO, ele afirmou que um "genocídio lento" ocorre na Cisjordânia, defendeu que Israel seja alvo de sanções internacionais e lamentou que o Papa Leão XIV e as igrejas cristãs não sejam mais contundentes em sua defesa dos palestinos.
Boa parte dos evangélicos no Brasil acredita que a defesa de Israel é um mandato bíblico. Como tem sido o diálogo com eles?
Muitos me dizem que não tinham conhecimento sobre a Palestina, não sabiam que o nosso sofrimento se deve à ocupação israelense e achavam que era um conflito religioso relacionado ao Islã. Muitos cristãos conservadores leem a Bíblia, relacionam o antigo Reino de Israel ao Estado de Israel atual e concluem que Israel é o "lado bom". Acostumaram-se a enxergar um mundo polarizado, do bem versus mal, sem compreender as nuances do conflito. Nossa própria identidade de cristãos palestinos é desconcertante para eles.
A mesma Bíblia usada para promover o sionismo cristão pode ser lida em favor da causa palestina?
Aqui no Brasil, me perguntaram muito: "Mas o que a Bíblia diz?". A partir de versículos muito específicos, os sionistas cristãos concluem que Deus toma o partido de determinadas identidades, nacionalidades e etnias. Eu leio a Bíblia e vejo um Deus que se coloca ao lado dos pobres e marginalizados. A Bíblia promove a justiça, a igualdade, a compaixão e a misericórdia, e rejeita a violência. O sionismo cristão não se justifica do ponto de vista bíblico, moral e ético.
No livro, o senhor condena os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 e assume "um compromisso inabalável com a não violência". Como deve se organizar a causa palestina a partir desse compromisso?
O mundo precisa atender aos apelos dos palestinos e impor sanções até que Israel cumpra o Direito Internacional. Boicotes podem ser ferramentas eficazes para pôr fim aos ataques contra os palestinos. Violência só produz mais violência, mata civis e beneficia apenas a indústria armamentista.
O incentivo a boicotes contra Israel é com frequência tachado de antissemita...
O antissemitismo, assim como todas as formas de racismo, deve ser combatido. Mas antissionismo não é antissemitismo. É vergonhoso instrumentalizar o antissemitismo para silenciar as críticas a Israel. Nossa campanha é contra as ações do Estado de Israel, não contra sua existência. Me reuni com judeus no Brasil, e pesquisas mostram que, nos Estados Unidos, cada vez menos judeus se identificam com o sionismo. Israel foi construído literalmente em cima das nossas terras, das nossas aldeias. Tudo o que queremos é não sermos expulsos ou mortos. Resistir e sobreviver não é antissemitismo.
A causa palestina tem apoio na sociedade civil israelense?
Nossos amigos israelenses que defendem a justiça são minoria. O movimento sionista nasceu secular, mas hoje é dominado por religiosos que não acreditam na solução de dois Estados. Organizações respeitadas do mundo todo afirmam que Israel comete genocídio em Gaza e nada acontece. A sociedade se radicalizou a tal ponto que nenhum político com chances reais de se tornar primeiro-ministro nas próximas eleições [marcadas para 27 de outubro] se declara a favor do Estado palestino. Na verdade, eles parecem competir para ver quem consegue ser mais radical contra os palestinos.
Segundo relatório do Religious Freedom Data Center (RFDC, uma instituição judaica israelense), houve 83 ataques a cristãos entre abril e junho deste ano em Israel (contra 12 de janeiro a março de 2024, logo após início da guerra em Gaza). Por que os ataques a cristãos aumentaram?
O relatório diz que a maioria dos ataques não é denunciada porque os cristãos sabem que os agressores não serão responsabilizados e contam com o respaldo da polícia. A criação de Israel deslocou mais de 50 mil cristãos palestinos. Aldeias cristãs inteiras foram destruídas. A tentativa atual de Israel de cobrar impostos das igrejas em Jerusalém pode ter consequências graves para a presença cristã na cidade e levar ao fechamento de muitas organizações. Agora mesmo está sendo construído um assentamento em Beit Sahour, perto de Belém, onde há uma das maiores concentrações cristãs na Palestina. Mas sei que muitos cristãos acreditam mais nas mentiras de Netanyahu do que em seus irmãos de Belém e Ramallah.
O governo israelense tem tomado medidas práticas para fortalecer o domínio sobre a Cisjordânia. Vê risco de anexação do território?
O processo de anexação se acelerou com o início do atual governo de Netanyahu, em janeiro de 2023. O que está acontecendo na Cisjordânia é um genocídio lento. Os próprios políticos israelenses falam em criar condições para os palestinos partirem. Segundo um relatório da B’Tselem [Centro de Informação Israelense para os Direitos Humanos nos Territórios Ocupados], desde 7 de outubro de 2023, mais de 60 comunidades palestinas foram deslocadas.
O Papa Francisco era um defensor dos palestinos e chegou a pedir que se investigasse se um genocídio estava sendo cometido em Gaza. Como avalia o tom mais diplomático do Papa Leão XIV?
Gostaríamos que o Papa Leão fosse mais contundente em suas declarações, mas só palavras de condenação e orações são insuficientes. Precisamos de ação, de líderes religiosos que exijam sanções para que Israel não continue sendo um Estado acima do Direito Internacional. As igrejas não têm sido proféticas o suficiente.
Munther Isaac/pastor luterano e teólogo palestino
La Nación Argentina O Globo Brasil El Mercurio Chile
El Tiempo Colombia La Nación Costa Rica La Prensa Gráfica El Salvador
El Universal México El Comercio Perú El Nuevo Dia Puerto Rico
Listin Diario República
Dominicana
El País Uruguay El Nacional Venezuela