Domingo, 20 de Septiembre de 2026

‘O desafio do brasil hoje é se tornar um hub de conteúdo’

BrasilO Globo, Brasil 20 de septiembre de 2026

Entrevista

Entrevista
A TelCables Brasil, do grupo Angola Cables, especializada em infraestrutura de conectividade internacional, avalia a construção de um segundo data center em Fortaleza. A expansão ocorre em um momento de crescimento da demanda por armazenamento e processamento de dados, já que a unidade atualmente operada pela companhia na capital cearense está perto da capacidade máxima. Em entrevista ao GLOBO, Rafael Lozano, CEO da companhia, afirmou que já prepara a ampliação de seu portfólio para áreas como computação em nuvem, segurança cibernética e inteligência artificial, em meio à transformação do setor: "A conectividade se tornou uma commodity".
De que forma o avanço da inteligência artificial está aumentando a demanda por investimentos em conectividade?
A inteligência artificial é a bola da vez. Isso cria uma oportunidade para outros países, como o Brasil. Estamos em uma posição excelente para atender essas necessidades. Aqui há espaço disponível, energia verde e água. Isso faz com que a energia seja muito mais barata em relação a outros países.
O Redata (programa de incentivos fiscais para zerar impostos federais na compra de equipamentos de data centers), que foi sancionado na semana passada pelo presidente Lula, pode atrair mais investimentos?
O Redata é relevante para atender o mercado internacional, porque vai reduzir os impostos de importação de equipamentos destinados a data centers voltados para a demanda estrangeira. Com o Redata, você elimina um dos maiores freios aos investimentos no Brasil, que é a carga tributária. Isso torna o país mais competitivo para receber projetos. O Redata é o primeiro passo, mas não o único. Há muito trabalho pela frente. É preciso definir os equipamentos que vão ser beneficiados. É preciso saber se esse benefício vai ser estendido a equipamentos de telecomunicações, pois um data center sem conectividade é uma ilha.
Mas já há consultas de empresas internacionais?
Os nossos clientes entendem que o Redata, do jeito que está, ainda não está bom. Mas eles já colocam nos planos deles a possibilidade de vir para o Brasil e aguardam essa definição sobre quais equipamentos vão entrar no programa, pois isso cria uma diferença de 20% no valor do investimento.
Esse cenário altera o plano de investimentos da companhia?
Estamos avaliando um segundo data center no país, e uma das questões que influenciam essa decisão é o custo e as incertezas relacionadas a impostos e taxas. E, com uma taxa de juros de 13,75%, o apetite do investidor diminui. Temos várias opções na mesa e estamos avaliando para onde queremos ir. Temos opções de construir e de operar data center. Vamos tomar essa decisão até o primeiro semestre do ano que vem. Será em Fortaleza, onde já temos um data center operando em capacidade praticamente plena. Entendemos que há oportunidade para atender os hyperscalers, como TikTok, Meta e Google, por exemplo, e também o mercado nacional, já que o Brasil tem cada vez mais apetite por serviços digitais.
Como esse cenário macroeconômico pode afetar os planos do Brasil de se tornar um hub de conectividade global?
O Brasil hoje já é um hub de conectividade. Fortaleza acolhe 16 cabos submarinos. É uma das cidades mais conectadas do mundo em nível de cabos submarinos, com conexão direta para a América do Norte, Europa e África. O desafio do Brasil hoje é se tornar um hub de conteúdo e não ser apenas um pedágio para as comunicações. É ser um lugar onde o conteúdo e os investimentos ficam. Quando eu falo em ser um hub de conteúdo, é, por exemplo, as fotos e vídeos que estão nos celulares serem armazenados no Brasil. Embora o usuário não se importe onde isso está armazenado, o fato é que, com a inteligência artificial, o usuário envia para as redes muito mais conteúdo do que baixa nos aparelhos.
E isso é mais rentável?
Ser um hub de conteúdo é muito mais rentável porque você atrai investimento. Quando a gente vê o TikTok anunciando a construção de um data center (no Ceará), a gente vê geração de investimento, vagas de trabalho e a revitalização de uma região. O impacto disso é muito alto. Gera muita riqueza. Por isso, atrair conteúdo é tão relevante. O sistema fica muito mais rico.
Então, não basta mais só oferecer serviços de conexão?
Nascemos como uma empresa de conectividade, mas hoje somos uma companhia de serviços digitais. A conectividade se tornou uma commodity. Por isso, estamos desenvolvendo serviços de segurança, de nuvem hospedada no Brasil e de inteligência artificial privada, onde a empresa vai treinar seu próprio modelo. As empresas também não precisam investir em GPUs, que são as placas de processamento. Elas podem alugar essa potência de processamento para rodar sua própria inteligência artificial.
Rafael Lozano/ CEO da TelCables Brasil, do grupo Angola Cables
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